Análises

A Noite Nunca Termina: o gótico nasce no anoitecer da sociedade

Celebrado em 22 de maio, o World Goth Day revela por que o sombrio continua fascinando em tempos de esgotamento coletivo. 

A origem desse termo gótico começou como um insulto e se transformou em uma morada para aqueles que caminham na noite, além de um fascínio cultural. A palavra surgiu a partir dos “godos”, povos germânicos vistos pejorativamente como “bárbaros” e muito associados à queda do Império Romano. Séculos depois, artistas do Renascimento passaram a usar o termo “gótico” como insulto contra a arquitetura do final do medievo, considerada caótica, obscura e bárbara em comparação aos ideais clássicos greco-romanos.

No entanto, o curioso é que aquilo que era tratado como símbolo de decadência e soturnidade acabou se tornando uma estética influente na Europa e em suas colônias, que foram brutalmente dominadas pela colonização. As catedrais colossais, os corredores labirínticos e sufocantes, os vitrais sombrios e as ruínas tomadas pela melancolia de outrora criaram uma sensação quase espiritual de mistério, temor e aproximação diante do soturno.

Pintura do rei Visigodo Alarico entrando em Atenas. por: Allan Stewart 1915. Imagem/Reprodução

Em plena ascensão do Iluminismo, quando a Europa começava a impulsionar a razão, a ciência e o progresso no século XVIII, surgiram artistas que decidiram caminhar na direção oposta. Buscavam o medo, o folclore, a emoção e a paixão. Foi nesse cenário que Horace Walpole lançou O Castelo de Otranto, considerado por muitos estudiosos o primeiro romance gótico da história. Publicada em 1764, a obra reunia fantasmagoria, castelos amaldiçoados, passagens escondidas e tragédias familiares, estabelecendo uma espécie de base para o gênero.

Para o pesquisador britânico Fred Botting, autor do livro Gothic, lançado em 1995, o gênero surge como uma espécie de “contraparte” do Iluminismo. Enquanto o século XVIII exaltava a razão e a ordem social, o gótico apresentava superstição, terror e desejos reprimidos. Para o autor, esse imaginário sombrio revelava as ansiedades que a modernidade tentava esconder.

Com o passar das luas, o gênero ampliou sua abrangência e passou a funcionar como uma espécie de laboratório emocional da sociedade. Obras como Frankenstein, de Mary Shelley, publicado em 1818 e também considerado um dos grandes marcos da ficção científica, Carmilla, de Sheridan Le Fanu, lançada em 1872, e os textos de John Polidori não utilizavam monstros apenas como elemento basal. Essas obras exploravam culpa, repressão, obsessão, sexualidade, isolamento e medo da morte. O vampiro, por exemplo, frequentemente simboliza desejos proibidos e ansiedades sociais, enquanto Frankenstein discutia os limites da ciência e a arrogância humana. Isso revela uma das maiores potências do gênero, usar o monstruoso para expor aquilo que a sociedade tenta encobrir.

Frankenstein por Barry Wrightson. Imagem/Reprodução

A ambientação comumente descrita como amedrontadora, com cemitérios, locais ermos e construções envelhecidas, frequentemente funciona como reflexo da mente humana. Um dos grandes nomes da crítica literária desse subgênero, o britânico David Punter, em The Literature of Terror, publicado em 1980,  discute como esses espaços representam estados psicológicos deteriorados. Para ele, tais ambientes simbolizam ansiedade, repressão e fragmentação interna.

No início do conturbado século XX, novas máquinas começaram a moldar o imaginário das massas. As imagens em movimento trouxeram um novo vislumbre para toda uma geração, e o cinema rapidamente absorveu essa imagética sombria. O expressionismo alemão de Nosferatu, dirigido por F. W. Murnau e lançado em 1922, ajudou a definir visualmente o horror moderno com sombras distorcidas, cenários opressivos e figuras quase irreais. Décadas depois, filmes como O Sangue na Garra de Satã, de Piers Haggard, de 1971, e Drácula de Bram Stoker, dirigido por Francis Ford Coppola e lançado em 1992, transformaram o gótico em algo popular sem abandonar sua essência.

Imagem retirada do filme Drácula de Bram Stoker. Imagem/Reprodução

Nos anos 1970 e 1980, o gótico deixou de ser linguagem literária e cinematográfica para se transformar em subcultura urbana e musical. O cenário pós-punk britânico transformou a melancolia em identidade visual e sonora. Bandas como Bauhaus, Siouxsie and the Banshees, The Cure e The Sisters of Mercy criaram sonoridades frias, introspectivas e densas. O preto virou símbolo visual da cena, mas o movimento nunca foi apenas estética. Pesquisadores como Paul Hodkinson enxergam a subcultura gótica como um espaço de pertencimento movido pelas mazelas do neoliberalismo, pelo desemprego e pelo desencanto social da Inglaterra na era Thatcher.

Gradualmente, a música gótica ampliou sua vastidão, como um anoitecer crepuscular, e gerou diversos desdobramentos, como darkwave, ethereal wave, industrial gothic e inúmeros outros subgêneros. Bandas como London After Midnight levaram o gênero para atmosferas etéreas e oníricas, enquanto Christian Death aproximou o goth do horror punk e da teatralidade macabra. Mesmo décadas depois, o movimento continua influenciando novas sonoridades.

Fotografia da banda Siouxsie and the Banshees. Imagem/Reprodução 

Com o passar do tempo, o gênero atravessou fronteiras e oceanos e começou a absorver os medos de diferentes sociedades, fazendo desta forma ficções variadas e distintas. Na América Latina, o chamado gótico latino-americano abandonou catedrais e castelos para mergulhar em ditaduras, violência urbana, desigualdade social e realismo fantástico. Já o gótico negro, explorado por autores e cineastas afro-diaspóricos, transformou o gênero em uma ferramenta para discutir racismo, trauma histórico, colonialismo e desumanização. Aqui no Brasil, o gótico ganhou contornos únicos, casarões decadentes, cidades desiguais, interiores esquecidos, violência cotidiana, folclore e uma constante sensação de abandono.

Imagem de um pequeno santuário de oração retirado em Bogotá, Colômbia.  Imagem/Reprodução

A estudiosa britânica Catherine Spooner, autora de Contemporary Gothic, publicado originalmente em 2007, discute como o gótico moderno atravessa a música, a moda, o cinema e o comportamento, funcionando como uma espécie de resposta cultural às ansiedades contemporâneas. Ela relaciona a evolução da subcultura às tensões urbanas e à sensação de desencanto da modernidade tardia.

Enquanto as mídias sociais vendem alegria permanente, produtividade constante e vidas perfeitamente, o gótico abraça o melancólico e não teme a própria vulnerabilidade, aceitando que o medo faz parte da existência humana. Talvez por isso tantas pessoas se conectem com vampiros, cemitérios e personagens emocionalmente destruídos. O gótico cria beleza dentro da ruína, funcionando quase como um refúgio em uma sociedade obcecada por um sucesso muitas vezes destrutivo.


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autor
Sou estudante de Jornalismo pela Universidade Federal do Tocantins (UFT). Desde a infância, quadrinhos, literatura e cinema me encantam, e desejo usar minha formação para falar daquilo que amo. Venho de uma pequena cidade no interior do estado, e essas narrativas me ajudaram a ir para lugares imagéticos, permitindo sair da minha realidade. Sou dono do perfil no Instagram Ermitonauta, focado em quadrinhos, literatura e cinema. Dê uma olhada no meu conteúdo.