Entre neons, algoritmos e identidades fragmentadas, o cyberpunk questionou os limites da humanidade muito antes da ascensão das redes sociais e da inteligência artificial
Em muitos aspectos, a ficção científica nos traz a confiança e a positividade de viagens interdimensionais em naves brilhantes como joias, a ciência como um farol da retidão e do avanço. Entretanto, poucos subgêneros foram tão influentes e proféticos quanto o cyberpunk. Surgido entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980, ele abandonou o otimismo tecnológico presente em boa parte do SciFi clássico para apresentar um futuro marcado por mega corporações opressivas e controladoras, desigualdade social, vigilância constante e indivíduos tentando sobreviver em meio ao caos urbano (seria tão bom se isso fosse apenas fantasia). Uma frase descreve esse gênero como nenhuma outra, tornando-se quase um bordão. Cunhada pelo crítico Lawrence Person, ela resume bem sua essência: “High tech, low life“ — alta tecnologia, baixa qualidade de vida.
As raízes do cyberpunk, ou melhor, os cabos cibernéticos de sua gênese, podem ser encontradas em autores como Philip K. Dick, que já questionava os limites entre humanidade, memória e realidade em obras como Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, lançada em 1968, e Alfred Bester, que abordava uma sociedade futurista corrompida em meio a uma trama policial, como demonstrado em seu romance The Demolished Man, de 1953. Contudo, o gênero ganharia seu exoesqueleto definitivo em 1984 com a publicação de Neuromancer, de William Gibson. O livro apresenta conceitos hoje familiares, como o ciberespaço, hackers conectados a redes globais e corporações mais poderosas que Estados. Tornando sua visão uma espécie de previsão do que viria a ser a modernidade.

A violência contida no gênero dialoga com reflexões de pensadores do passado. As observações sobre vigilância e controle social lembram os estudos do filósofo francês Michel Foucault, especialmente seu conceito de panoptismo, descrito em seu livro Vigiar e Punir, de 1975, no qual os indivíduos vivem sob a possibilidade constante de observação. Já as ideias do sociólogo Jean Baudrillard sobre simulações de sistemas e hiper-realidade ecoam em narrativas nas quais o virtual se torna indistinguível do real, como explorado em seu livro Simulacros e Simulação, lançado em 1981. Em muitos aspectos, as obras cyberpunk questionam se ainda existe uma identidade humana em um mundo mediado por algoritmos, próteses avançadas, redes digitais e inteligências artificiais.
Na cinematografia, o movimento encontrou uma de suas maiores forças e o poder de propagar seus conceitos mundo afora. Em Blade Runner, dirigido por Ridley Scott e lançado em 1982, inspirado na obra de Philip K. Dick, a estética de ruas congestionadas por anúncios berrantes em neon, chuvas melancólicas e arquitetura decadente se tornaria praticamente a imagem standart do gênero. Anos depois, Ghost in the Shell, baseado no mangá de Masamune Shirow, cuja animação foi lançada em 1995, e The Matrix, das irmãs Wachowski, lançado em 1999, aprofundaram questões sobre consciência, realidade simulada e pós-humanismo.

No Japão, o cyberpunk encontrou terreno fértil para florescer, muito em razão dos elementos culturais e religiosos já existentes, como o xintoísmo e o budismo, além do colapso da economia japonesa nos anos 1990, que levou muitos trabalhadores a jornadas exaustivas e a uma visão pessimista do futuro. Obras como Akira, de Katsuhiro Otomo, que moldou uma geração de artistas com seu mangá e sua adaptação cinematográfica lançada em 1988, e animes como Serial Experiments Lain, de 1998, exploraram os efeitos psicológicos e sociais da tecnologia sobre os indivíduos. Diferentemente de muitas produções feitas no Ocidente, essas obras frequentemente combinavam questões tecnológicas com espiritualidade, identidade coletiva e transformações existenciais, criando interpretações distintas e impactantes do gênero.

Antes que as ruas ficassem embebidas em neon brilhante, antes que máquinas rasgassem os céus sobrevoando megalópoles, antes dos piratas cibernéticos de Neuromancer e das megaempresas que dominariam o imaginário cyberpunk, existia uma revolução silenciosa acontecendo nos quadrinhos franco-belgas. Em 1975, a revista Métal Hurlant reuniu artistas de peso que definiriam a estética da ficção científica moderna, entre eles Jean Giraud (Moebius) e Philippe Druillet. Embora suas obras não fossem necessariamente cyberpunk, elas criaram uma linguagem visual amplamente explorada nos anos que se seguiram.
Em especial, The Long Tomorrow, de Moebius e Dan O’Bannon, publicada em 1976, apresentou uma metrópole vertical e corrosiva, repleta de anúncios e poluição. O diretor Ridley Scott, já afirmou que a revista Métal Hurlant foi uma de suas inspirações para Blade Runner. Já Druillet, com suas cidades monumentais, arquiteturas opressivas e visões de sociedades decadentes em obras como Delirius, publicada em 1973, ajudou a consolidar a sensação de gigantismo urbanístico e colapso social que o cyberpunk viria a abraçar.

Para além das máquinas futuristas, das narrativas investigativas e das conspirações industriais, o cyberpunk traz uma ressonância de elementos da nossa sociedade atual. O gênero sempre funcionou como uma crítica ao capitalismo tardio, à concentração de poder econômico e à mercantilização da própria existência humana. Em suas histórias, tudo pode ser comprado, vendido ou monitorado, memórias, corpos, informações e até emoções. Nesse contexto, a tecnologia funciona como uma ferramenta que frequentemente amplifica desigualdades já existentes.
Existe uma discussão frequente nas redes, afirmando que vivemos em uma realidade cada vez mais cyberpunk. Carregamos dispositivos mais poderosos do que os computadores imaginados pelos pioneiros do gênero, convivemos com inteligência artificial, reconhecimento facial, coleta massiva de dados e plataformas digitais que influenciam hábitos, opiniões e comportamentos. Ao mesmo tempo, em diversas regiões, como a nossa América Latina, essas inovações convivem lado a lado com a precarização do trabalho, a desigualdade extrema e a infraestrutura deficiente.
O futuro prometido chegou, mas não foram as space operas, as viagens temporais, muito menos as tecnologias de Os Jetsons. As luzes de neon existem, as redes globais também, porém muitos continuam vivendo à sombra delas. High tech, low life.