Análises

O Universo Há Muito Nos Ignora: Horror Cósmico e Sua Gênese

Do medo do desconhecido ao colapso da mente: como o horror cósmico transformou o insignificante em terror absoluto.

A sensação de olhar para o céu e perceber que não há nada ali para você. Foi Howard Phillips Lovecraft quem deu forma a esse abismo, transformando o medo do desconhecido em uma imagética própria, o pavor do incompreensível, do indizível, daquilo que escapa à linguagem. Anterior ao próprio H.P. Lovecraft, ecos desse terror já habitavam o sublime filosófico, em autores como Edgar Allan Poe, Arthur Machen e Robert W. Chambers, em que, na era das descobertas, o desconhecido deixava de ser belo e passava a ser insuportável. 

Um retrato em preto e branco do autor , Howard Phillips Lovecraft. Na imagem, ele aparece vestido de terno, com uma expressão séria e olhar fixo. Ao fundo, vê-se uma estante de livros. Foto/Reprodução.

No coração do horror cósmico existe uma ideia simples e, por isso, tão poderosa: o ser humano não é o centro de nada. Não há propósito, não há ordem, não há narrativa que nos coloque como protagonistas. O universo há muito nos ignora. E é justamente essa indiferença que rompe com o horror tradicional. Existe a falta de um grande vilão antagônico. Há apenas a constatação de que o conhecimento, quando levado longe demais, não ilumina, muito pelo contrário. 

Em seu ensaio Supernatural Horror in Literature, publicado originalmente em 1927. O texto funciona como uma cartografia do medo sobrenatural na literatura, atravessando autores como Poe, Machen, Algernon Blackwood, M. R. James, Ambrose Bierce e Lord Dunsany para abordar uma ideia, o verdadeiro horror nasce do desconhecido. É nesse escrito que Lovecraft formula sua afirmação de que “O medo mais antigo da humanidade é o medo do desconhecido.”, transformando o terror em algo além do grotesco ou da violência física. O texto praticamente estabelece as bases desse horror, valorizando atmosfera, estranhamento e a sensação de que existem forças muito além do entendimento. 

Foi nas páginas baratas, feitas de polpa de árvores, das revistas pulp que esse pensamento ganha corpo. Criaturas ancestrais, deuses esquecidos, cidades submersas e livros proibidos passaram a povoar histórias como “O Chamado de Cthulhu” e “Nas Montanhas da Loucura”. O chamado “Cthulhu Mythos” era um sistema de ideias, mesmo que não organizado por Lovecraft, em que a realidade é algo frágil, prestes a se romper diante de forças invisíveis que sempre estiveram ali. 

Revistas de literatura pulp amontoadas e dispostas sobre uma superfície plana. Imagem/Reprodução.

Mas, dentro desse cosmos, existe uma fissura que rasga esse legado. Lovecraft projetava em suas narrativas o medo do outro. Seu racismo explícito, documentado em cartas e refletido em obras como “O Horror em Red Hook”, demonstrava um homem inseguro e cheio de problemas, que misturava o desconhecido cósmico com questões raciais, xenofobia e preconceito, transformando culturas e corpos em uma visão degenerada. 

E é justamente dessa contradição que nasce uma das viradas mais interessantes do gênero. Autores contemporâneos começaram a compor o horror cósmico utilizando elementos presentes nos textos de H.P. Lovecraft, mas usando isso para discutir elementos como racismo estrutural, preconceito e manipulação de massa. Victor LaValle, por exemplo, em seu livro A Balada do Black Tom, revisita Lovecraft a partir da perspectiva de um homem negro, revelando que o horror não permeia as estrelas, e sim quem caminha nas ruas. Na série Lovecraft Country, monstros cósmicos dividem espaço com o racismo e seitas; muitas vezes, este último é o mais assustador. 

Ao mesmo tempo, o horror cósmico atravessa oceanos e encontra novas formas. No Japão, Junji Ito transforma o infinito espiral de seu mangá Uzumaki em repetição, em obsessão, algo visual e existencial. No anime Neon Genesis Evangelion, o contato com o incompreensível dissolve identidades e fragmenta o eu. Já na ficção científica de Cixin Liu, o cosmos é matemático, frio e inevitável. 

A imagem é uma colagem composta pelo livro A Balada do Black Tom, de Victor LaValle, e pelas obras Uzumaki, de Junji Ito, e Neon Genesis Evangelion, de Hideaki Anno. Imagens/Reprodução.

Com o tempo, o gênero se expande e se reinventa. Sai das páginas pulp e invade o cinema, os quadrinhos e os videogames. Do clássico O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter, que, em 1982, mesclou o medo do cosmos com horror corporal, passando pelo livro IT, de Stephen King, que trazia em Pennywise elementos espaciais, até Providence, do mago dos quadrinhos Alan Moore, mesclando questões do indizível e do inominável, refletindo vários elementos da literatura de Lovecraft e das revistas pulp, chegando até animações como Coragem, o Cão Covarde e Hora de Aventura. Além de diversas outras obras, jogos, contos e séries que abordam esses elementos.

Cena do filme O Enigma de Outro Mundo, dirigida por John Carpenter. A imagem mostra o personagem principal, R.J. MacReady (interpretado por Kurt Russell), de pé em uma sala fria, observando um cadáver congelado. Imagem/Reprodução.

Esse horror continua sendo sobre o abismo. Mas podemos ter a percepção de que se trata de muitos abismos. O abismo do universo, vasto e indiferente, onde a humanidade é apenas um ruído. E também os abismos humanos, o do medo, o da fragilidade da mente diante daquilo que não consegue ser explicado. Ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’nagl fhtagn (Em sua morada em R’lyeh, o morto Cthulhu espera sonhando)


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autor
Sou estudante de Jornalismo pela Universidade Federal do Tocantins (UFT). Desde a infância, quadrinhos, literatura e cinema me encantam, e desejo usar minha formação para falar daquilo que amo. Venho de uma pequena cidade no interior do estado, e essas narrativas me ajudaram a ir para lugares imagéticos, permitindo sair da minha realidade. Sou dono do perfil no Instagram Ermitonauta, focado em quadrinhos, literatura e cinema. Dê uma olhada no meu conteúdo.