Explore as raízes profundas dos quadrinhos no Brasil, do pioneirismo de Agostini e Sisson à consagração de novas vozes que redefinem o cenário editorial
A gênese de um mosaico cultural
Celebrar o Dia do Quadrinho Nacional em 30 de janeiro é o reconhecimento das histórias em quadrinhos como uma linguagem artística e literária fundamental no Brasil. Embora frequentemente associadas ao entretenimento infantil, as HQs brasileiras consolidaram-se como potentes ferramentas históricas e sociais, capazes de registrar costumes, modismos e críticas políticas de cada época.
Essa relevância atravessa séculos. Desde as sátiras ilustradas que circulavam no Império até as produções independentes que hoje dominam as redes sociais e feiras gráficas, a nona arte brasileira prova ser um organismo vivo, resiliente e em constante transformação.
Contexto aprofundado: a disputa pelo pioneirismo
A cronologia oficial aponta 30 de janeiro de 1869 como o marco inicial, quando Angelo Agostini publicou As Aventuras de Nhô-Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte. Agostini, um ítalo-brasileiro, criou um herói cômico — um caipira ingênuo no Rio de Janeiro — para tecer críticas contundentes aos problemas urbanos e à política da época.


Entretanto, a historiografia moderna das HQs exige uma atualização: em 15 de outubro de 1855, Sébastien Sisson publicou “O Namoro, Quadros ao Vivo” na revista O Brasil Illustrado. Esta obra, que utiliza o formato de quadros sequenciais para narrar um namoro com humor, antecede Nhô-Quim em 14 anos, desafiando o cânone tradicional e colocando o Brasil no topo do pioneirismo mundial, anos antes do surgimento de ícones estrangeiros como Yellow Kid.

A oficialização desta data histórica está em pauta no Congresso Nacional através do PL 2328/2024, que visa tornar o 30 de janeiro o Dia do Quadrinho Nacional oficial em todo o país, obrigando o poder público a promover a arte sequencial e incentivar a renda de seus artistas.
A descentralização do imaginário
Por décadas, o eixo Sudeste deteve o monopólio da visibilidade editorial. Nomes como Mauricio de Sousa, Ziraldo e Laerte tornaram-se sinônimos de HQ no Brasil. Contudo, a verdadeira revolução contemporânea vem das periferias e, notadamente, da Região Norte.

O movimento Norte em Quadrinhos, liderado pela produtora cultural Sâmela Hidalgo e outros, rompeu a lógica dos grandes centros, transformando a Amazônia em uma voz ativa e pulsante no cenário literário. Não se trata apenas de produzir HQs, mas de ocupar espaços em festivais e premiações nacionais. O impacto é visível: em 2025, o Norte alcançou seu recorde histórico no Troféu HQMIX, conquistando quatro troféus e elevando a produção amazônica ao status de polo indispensável.
Linha do tempo do quadrinho nacional
- 1855: Publicação de “O Namoro, Quadros ao Vivo”, de Sébastien Sisson, a primeira arte sequencial brasileira.
- 1869: Estreia de As Aventuras de Nhô-Quim, de Angelo Agostini, marco que define a data comemorativa.
- 1906: Surge O Tico-Tico, apresentando Juquinha, o primeiro herói nacional dos quadrinhos infantis.
- 1984: A Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas de São Paulo (AQC-SP) cria simbolicamente o Dia do Quadrinho Nacional.
- 2025: Artistas nortistas conquistam reconhecimento inédito no Troféu HQMIX, consolidando o Circuito Amazônico de Quadrinhos.
- 2026: Proposta de oficialização da data via lei federal avança no Senado.
Impacto cultural e o legado da resistência
O quadrinho nacional sempre foi uma linguagem de intervenção. Durante a ditadura militar, veículos como O Pasquim serviram de trincheira para artistas como Henfil e Luiz Gê, que utilizaram a sátira e a caricatura como ferramentas na luta pela democracia.

Hoje, esse legado de resistência se traduz na diversidade temática. Obras como “A Voz da Foz” utilizam os quadrinhos para debater a exploração de petróleo na foz do Amazonas, conectando arte, território e meio ambiente. O mercado brasileiro atual é um “mosaico de um país-continente”, onde coexistem desde o mangá nacional 48km até romances gráficos premiados como Castanha do Pará.

A força do quadrinho brasileiro reside em sua recusa em ser apenas uma “versão” do material estrangeiro. Ao observarmos produções como o coletivo paraense Serendi ou as narrativas épicas de Contos dos Orixás, percebemos que o Brasil finalmente aprendeu a desenhar sua própria identidade. A descentralização não é apenas geográfica; é intelectual. Quando a Amazônia ou as periferias urbanas tomam o lápis, o que vemos é um país redescobrindo sua própria estética, longe dos purismos vazios e mais próximo da realidade vibrante das ruas.
O convite à descoberta
O quadrinho nacional é, em última análise, um convite à imaginação interativa. Do caipira de Agostini aos heróis contemporâneos das aparelhagens, a nona arte brasileira continua a nos provocar.
Qual foi a última vez que você permitiu que uma história genuinamente brasileira redesenhasse sua visão de mundo? O futuro do nosso quadrinho já está sendo traçado e ele passa, mais do que nunca, por todas as latitudes do Brasil.
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