Entrevistas

Sâmela Hidalgo e a missão de descentralizar os quadrinhos

Idealizadora do projeto “Norte em Quadrinhos”, Sâmela Hidalgo utiliza sua experiência em grandes editoras para profissionalizar e dar visibilidade aos artistas da Amazônia no cenário nacional. Foto/Divulgação

A trajetória da manauara que atua nos bastidores da Panini e lidera o movimento para descentralizar a nona arte no Brasil.

Comunicadora, editora e idealizadora do projeto “Norte em Quadrinhos”, Sâmela Hidalgo atua na vanguarda da visibilidade e profissionalização de artistas amazônidas. Foto/Redes Sociais

Sâmela Hidalgo ocupa um espaço singular e polifônico na cena contemporânea da nona arte brasileira: ela é, simultaneamente, uma operadora das engrenagens corporativas e uma agitadora das bases regionais. Natural de Manaus, Hidalgo não se limitou a observar a hegemonia editorial do eixo Sul-Sudeste; em vez disso, infiltrou-se nela. Sua trajetória de cinco anos na Devir Brasil serviu como um batismo de fogo editorial, onde enfrentou o desafio hercúleo de coordenar projetos complexos de Alan Moore, como A Liga Extraordinária: Dossiê Negro.

Hoje, como assessora de imprensa da Panini Brasil, ela gerencia a imagem de gigantes como Marvel e DC no país, mas é em seu papel de “arquiteta cultural” que sua influência se torna mais subversiva. Através do projeto Norte em Quadrinhos e da co-organização da Semana do Quadrinho Nacional de Manaus, Hidalgo atua na vanguarda de um movimento de descentralização estética e profissional, forçando o mercado a reconhecer a vitalidade artística da Amazônia que, historicamente, foi negligenciada pelos porteiros da indústria.

Nesta conversa para o HQPOP, exploramos a visão de Hidalgo sobre a profissionalização do artista nortista, os bastidores das grandes licenciaturas e como ela equilibra a irreverência da fã com o pragmatismo da editora que ajuda a moldar o que o Brasil lê.

HQPOP – Para começar do início: quando os quadrinhos deixaram de ser apenas interesse e passaram a fazer parte da sua trajetória?

Sâmela Hidalgo – Minha trajetória mudou radicalmente quando saí de Manaus para São Paulo para cursar Produção Editorial. Na época, meu foco era o mercado de livros convencionais, mas tudo virou de cabeça para baixo quando li Maus, do Art Spiegelman, na faculdade. Aquela HQ foi um divisor de águas, minha cabeça explodiu quando percebi o potencial narrativo e a profundidade que os quadrinhos poderiam alcançar. Foi naquele momento que decidi que meu caminho seria nas HQs. A transição do interesse para a carreira profissional se consolidou logo em seguida, quando tive a oportunidade de começar a trabalhar como assistente editorial na Editora Devir, onde mergulhei de vez no mundo dos quadrinhos.

Você escreveu para a plataforma Mina de HQ, voltada à diversidade. Como você avalia hoje a importância de ampliar o espaço para mulheres, pessoas trans e não binárias na produção e crítica de quadrinhos?

Minha passagem como colunista da Mina de HQ, entre 2021 e 2023, foi um período fundamental para consolidar o que acredito: a diversidade não é apenas uma ‘pauta’, mas a própria sobrevivência e renovação da linguagem dos quadrinhos. Ampliar o espaço para mulheres, pessoas trans e não binárias, tanto na produção quanto na crítica, é romper com um olhar viciado e limitado que dominou o mercado por décadas. Quando trazemos essas vozes para o centro, não estamos apenas sendo ‘inclusivos’, estamos enriquecendo a arte com novas estéticas, novas vivências e, principalmente, novos públicos que finalmente se veem refletidos nas páginas. A crítica feita por essas pessoas também é vital, pois ela questiona estruturas e propõe leituras que um grupo homogêneo jamais conseguiria enxergar.

Em um de seus artigos, você destacou artistas do Norte que denunciam as calamidades na Amazônia por meio da arte. Na sua visão, qual é o papel dos quadrinhos como ferramenta de denúncia social e ambiental na região?

Para nós, que somos da Amazônia, não existe arte sem luta. Nossa identidade como amazônidas é intrinsecamente ligada às questões ambientais e indígenas, não dá para desassociar uma coisa da outra porque elas fazem parte de quem somos. Por isso, vejo os quadrinhos como uma ferramenta de denúncia extremamente potente. A linguagem visual das HQs consegue traduzir a urgência das nossas pautas de uma forma que o texto puro, às vezes, não alcança. Nosso papel como comunicadores e artistas é o de ecoar essas vozes e caminhar lado a lado com os movimentos sociais. Usar os quadrinhos para mostrar as calamidades que enfrentamos é uma forma de retomar a nossa narrativa, garantindo que a nossa história seja contada por nós mesmos e não por quem olha a floresta de longe.

Você também já cobriu o Festival Internacional de Quadrinhos. Quais são os principais desafios e também oportunidades para artistas e comunicadores do Norte ao ocupar esses espaços no eixo Sudeste?

O principal desafio é, sem dúvida, a barreira geográfica e econômica. Para um artista ou comunicador do Norte, ocupar espaços no eixo Sudeste exige um investimento altíssimo em logística, passagens e transporte de material, o famoso ‘custo Amazônia’ que muitas vezes inviabiliza a nossa presença. No entanto, quando conseguimos estar lá, a oportunidade é gigante: é o momento de furar a bolha, mostrar que produzimos com uma qualidade técnica absurda e com narrativas que o mercado está sedento para conhecer. Mas o mais gratificante é perceber que essa via parou de ser única. Hoje, estamos fazendo o movimento inverso: com a consolidação dos nossos próprios eventos, como o Circuito Amazônico de Quadrinhos, estamos fazendo com que artistas e editores do Brasil inteiro venham até nós, no Norte, para entender a nossa força e a nossa produção de perto.

Seu trabalho transita entre jornalismo cultural e crítica. Qual você considera ser sua principal missão como comunicadora ao dar visibilidade às narrativas da Região Norte?

Minha missão principal é a descentralização real do olhar. Quero combater os estereótipos que reduzem a Amazônia a um conceito genérico e mostrar a pluralidade e o profissionalismo da nossa produção. Mas, para além disso, entendo que meu papel é fazer um caminho de volta: eu ocupo espaço no mercado editorial no Sudeste não apenas para estar aqui, mas para levar essa visibilidade, minha voz e os frutos da minha carreira de volta para os meus conterrâneos. Minha missão é usar o acesso que conquistei para abrir portas, oferecendo ferramentas e pontes para que os artistas do Norte entendam que eles também podem e devem ocupar o mercado nacional, sem perder sua essência e sem precisar de intermediários que não conhecem a nossa realidade.

Foto/Divulgação

Como surgiu o projeto Norte em Quadrinhos? Qual foi o ponto de virada que transformou a ideia em iniciativa concreta?

O Norte em Quadrinhos nasceu de um incômodo em 2019, em pleno palco da CCXP. Eu estava lá como convidada e, ao olhar para o Artists’ Alley, percebi o quanto a presença de artistas do Norte ainda era escassa em um evento daquela proporção. Aquilo me incomodou de tal forma que, ali mesmo, no palco, anunciei que criaria um projeto de divulgação para mudar essa realidade. O ponto de virada para a iniciativa se tornar concreta foi em 2020: com o isolamento da pandemia, usei o tempo em casa para tirar o plano do papel. Comecei a realizar lives apresentando os artistas da nossa região e seus trabalhos, criando uma vitrine direta para o público, para as editoras e para o mercado. O que começou como uma promessa no maior evento de cultura pop do mundo virou uma ferramenta real de conexão e visibilidade.

A Região Norte é marcada por uma diversidade cultural enorme. Como é, na prática, articular e trabalhar com artistas tão distintos em linguagem, origem e proposta?

Trabalhar com essa pluralidade é um exercício constante. A Região Norte é gigantesca e cada estado possui suas próprias vivências e identidades. Na prática, a articulação acontece quando entendemos que não existe uma ‘estética única’ da Amazônia. Temos desde artistas que exploram a vivência ribeirinha, indígena e urbana até aqueles que fazem ficção científica, horror, mangá e etc. O meu papel é garantir que o Norte em Quadrinhos seja um guarda-chuva que acolha todas essas linguagens sem tentar padronizá-las. A maior riqueza do projeto é justamente mostrar para o resto do Brasil que o Norte produz de tudo, com uma qualidade técnica absurda, e que nossa força está na soma dessas vozes tão distintas, e não em um estereótipo único.

Foto/Arquivo Pessoal

Com a aproximação do Circuito dos Quadrinhos, como é o seu processo de preparação tanto na curadoria quanto na organização e cobertura?

Meu papel no Circuito Amazônico de Quadrinhos é focado em assessoria, direção e produção executiva. O grande desafio é garantir que o evento seja amplamente divulgado e pautado, especialmente pelos veículos da Região Norte e por portais especializados em quadrinhos em todo o Brasil. Na produção executiva, eu e a TAI coordenamos tanto a equipe central de comunicação quanto damos apoio às equipes das organizações locais em cada cidade. A missão é padronizar a experiência: como são seis eventos em locais distintos, precisamos garantir que todos estejam alinhados e organizados sob a mesma identidade. Queremos que o público e os parceiros entendam que cada etapa faz parte de um mesmo movimento coeso, profissional e fortalecido.

Além disso, meu trabalho envolve alinhar todas as frentes e ouvir as ideias que vêm de cada cidade, garantindo que o diferencial cultural do Circuito seja valorizado. Um dos nossos grandes destaques é promover passeios culturais que ajudam os visitantes, artistas e convidados de fora a conhecerem a Amazônia real. É um papel de comunicação e hospitalidade que visa desmistificar o que se sabe sobre o Norte, quebrando estereótipos e permitindo que eles vivenciem a nossa cultura de forma autêntica enquanto trocam experiências.

Para quem está começando agora: como novos artistas podem se aproximar e participar do Norte em Quadrinhos? Existe um caminho ou orientação inicial?

O primeiro passo é estar presente. O Norte em Quadrinhos não é apenas uma vitrine, é um movimento de comunidade, então o artista precisa acompanhar de perto o que estamos fazendo. O caminho inicial é seguir o nosso perfil, estar por dentro das nossas atualizações e, principalmente, entrar no nosso grupo do WhatsApp, que é onde a articulação acontece de forma mais direta. Participar ativamente das nossas atividades e iniciativas é o que faz o artista ser visto e lembrado quando surgem oportunidades.

Além desse engajamento comunitário, hoje temos a NHQ Escola de Narrativas, que surgiu justamente para profissionalizar e orientar quem está começando. A escola é o nosso braço de formação técnica e estratégica, onde ajudamos o artista a entender não só a criação, mas como se posicionar no mercado e estruturar suas próprias histórias.

Que mensagem você deixa para quem produz arte na periferia, na Amazônia ou fora dos grandes centros?

Sâmela Hidalgo – A mensagem que eu deixo é: não peçam licença para existir e ocupar os espaços. Por muito tempo, nos fizeram acreditar que estar fora dos grandes centros era uma limitação, mas a verdade é que a nossa localização geográfica é o nosso maior diferencial criativo. Nossa perspectiva, nossa vivência e a forma como enxergamos o mundo são únicas e o mercado está sedento por essa autenticidade.

Produzir na periferia ou na Amazônia é um ato de resistência, mas também é um ato de vanguarda. O mundo precisa ouvir as nossas histórias, contadas pelas nossas próprias vozes. Acreditem no valor da trajetória de vocês e entendam que o ‘centro’ é onde a gente decide fincar o nosso pé e realizar o nosso trabalho com excelência.


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Editor
Emerson Coe é jornalista e editor do HQPOP, portal especializado em cultura pop, quadrinhos, literatura, cinema e entretenimento. Atua na produção de reportagens, entrevistas e análises sobre o universo geek e a indústria cultural.