Ficção histórica que resgata a saga do povo indígena dizimado no Rio Grande do Sul. Lançamento previsto para 2026 com arte de Moacir Martins.
O cenário dos quadrinhos brasileiros está prestes a ganhar um capítulo fundamental na reconstrução da sua própria identidade histórica. Enquanto a cultura pop global frequentemente celebra a resistência de povos como os Apaches, o Brasil negligenciou, por séculos, as narrativas de seus próprios guerreiros das pampas. A futura publicação de uma HQ inédita sobre o povo Charrua não é apenas um lançamento editorial; é um movimento de reparação histórica que utiliza a nona arte para trazer à luz uma etnia empurrada para “debaixo do tapete da história”.

O que aconteceu O projeto, intitulado provisoriamente como Charruas, é uma ficção histórica encabeçada pelo roteirista Rodinério da Rosa e pelo ilustrador Moacir Martins, com lançamento previsto para agosto de 2026. Selecionada pelo edital Fumproarte de Porto Alegre, a obra de aproximadamente 94 páginas acompanhará a jornada de Cayuare, um guerreiro fictício que servirá de guia pelas origens, cultura e o trágico processo de dizimação de seu povo pelos colonizadores ibéricos.
Por que isso importa A relevância deste projeto reside na sua fundamentação. Para contornar o quase total apagamento da língua e dos registros charruas, os autores contam com a consultoria do historiador indígena Danilo Braga e do professor Daniel Bass (UFRGS). Rosa, inspirado por obras como Enterrem Meu Coração na Curva do Rio, traça um paralelo direto entre a resistência charrua e a dos povos nativos da América do Norte, destacando um espírito de não aceitação do domínio invasor que é pouco explorado nos livros didáticos tradicionais.
Impacto no mercado e na cena cultural A produção de Martins utiliza técnicas modernas, como a modelagem 3D seguida de finalização em caneta digital, para reconstruir visualmente um povo do qual restaram poucas referências físicas. Além do impacto estético, a HQ cumpre uma função social: 200 exemplares serão distribuídos gratuitamente em escolas e bibliotecas, e uma versão em audiolivro descritivo garantirá acessibilidade total. A obra se posiciona como a primeira do Rio Grande do Sul a focar especificamente nesta temática, preenchendo uma lacuna narrativa no mercado de HQs nacionais.

A iniciativa da Da Rosa Estúdio é um lembrete necessário de que o quadrinho nacional atingiu uma maturidade onde a ficção serve como o principal veículo de preservação de memória. Ao escolher o formato de ficção histórica, os autores não apenas informam, mas humanizam figuras que foram reduzidas a notas de rodapé estatísticas sobre o genocídio indígena. O “trágico destino” dos Charruas, nas mãos de Rosa e Martins, promete ser mais do que uma crônica de derrota; parece um manifesto sobre a sobrevivência da identidade através da arte. O uso da liberdade artística para preencher as lacunas deixadas pelo desaparecimento da língua charrua é uma escolha corajosa e necessária para que esses personagens voltem a “falar” com o público contemporâneo.
Com o projeto atualmente em fase de desenvolvimento (“colocando no papel”), o público pode esperar uma obra com densidade pedagógica, reforçada por textos educativos que acompanharão a HQ. O sucesso desta publicação poderá abrir portas para outros projetos de Rosa, que já manifestou interesse em explorar a participação indígena na Revolução Farroupilha. Os interessados podem acompanhar o progresso visual pelo Instagram oficial do projeto.
A história dos Charruas nos força a questionar: quantas outras civilizações brasileiras permanecem invisíveis apenas porque não foram desenhadas? Até que ponto o nosso desconhecimento sobre o passado limita a nossa compreensão sobre a crise social e o modelo de mundo atual?
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