Uma análise profunda da biografia “All the Way”, que disseca 45 anos de música, polêmicas e a herança imortal do Joy Division e seus projetos paralelos.
Poucas bandas no mundo carregam um DNA tão dramático e transformador quanto o New Order. Nascido das cinzas do Joy Division após o suicídio de Ian Curtis, o grupo não apenas sobreviveu ao luto, mas redefiniu a música pop e eletrônica global. Em “All the Way: New Order, Joy Division e Projetos Paralelos”, que chega às livrarias pela editora Belas Letras, os autores brasileiros Luís Angelo Aracri e Ricardo Augusto Fernandes entregam o que pode ser considerada a obra definitiva sobre o quarteto de Manchester no Brasil.
O retrato de uma reinvenção

A obra não se limita a ser uma cronologia linear. Ela mergulha na gênese tensa do Joy Division, revisitando sessões de gravação em 1978 onde a identidade da banda era moldada sob conflitos como a curiosa sugestão para que Curtis “cantasse como James Brown”. O livro trata com sensibilidade a saúde de Ian, conectando suas crises de epilepsia a letras icônicas como “She’s Lost Control”.
A transição para o New Order é descrita como um salto no escuro. Os autores detalham a busca por uma nova sonoridade e as polêmicas iniciais, como as acusações infundadas de referências ao nazismo devido ao nome do grupo e escolhas estéticas herdadas do período anterior. Um dos pontos altos da narrativa é a descrição técnica e caótica da gravação de “Blue Monday”: o leitor sente a tensão do momento em que a banda descobriu que o backup da base rítmica, feito em uma fita cassete, havia sido apagado acidentalmente após horas de programação exaustiva.

Rigor e paixão
A qualidade da escrita se beneficia do equilíbrio entre seus autores. De um lado, o olhar analítico do pesquisador acadêmico Luís Angelo Aracri; de outro, a vivência pulsante de Ricardo Augusto Fernandes, que assistiu à banda mais de 30 vezes em 12 países. Essa dualidade evita que o livro se torne um mero almanaque de fatos, conferindo-lhe uma alma de “fã-pesquisador” que valoriza desde a concepção das capas de discos até as dinâmicas interpessoais mais ácidas.

O livro acerta ao não fugir das controvérsias. As passagens do grupo pelo Brasil são retratadas sem filtros, expondo os excessos de álcool, drogas e as “loucuras” de turnê que terminaram com integrantes sendo levados ao aeroporto em cadeiras de rodas após festas regadas a cocaína e acompanhantes em São Paulo.

A estrutura narrativa, que abrange 558 páginas, é robusta e inclui a análise de projetos paralelos, como o Electronic, revelando bastidores curiosos como o fato de Johnny Marr ter convidado Peter Hook antes de se juntar a Bernard Sumner.
Pontos Fortes:
- Pesquisa documental exaustiva: O uso de entrevistas exclusivas permite confrontar versões contraditórias dos próprios integrantes.
- Contextualização brasileira: O olhar sobre as turnês nacionais humaniza os ídolos e oferece um valor agregado único para o leitor local.
- Riqueza visual: A inclusão de dezenas de fotos inéditas complementa a imersão na estética da banda.
Ponto Fraco:
- Extensão: Para o leitor casual, as mais de 500 páginas e o detalhamento técnico de sessões de gravação podem parecer densos demais, embora sejam um deleite para o colecionador.
“All the Way” é um triunfo editorial. Consegue equilibrar o peso histórico do Joy Division com a euforia tecnológica do New Order, sem ignorar as cicatrizes que essa jornada deixou em Peter Hook, Bernard Sumner, Stephen Morris e Gillian Gilbert. É a recomendação ideal não apenas para os “órfãos” de Ian Curtis, mas para qualquer entusiasta da cultura pop que deseje entender como a dor pode ser transmutada em batidas sintéticas que ainda hoje ecoam nas pistas de dança.
Fãs devotos de pós-punk e música eletrônica, historiadores da música e colecionadores que buscam profundidade além da “história oficial”.
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