Das pinceladas pioneiras de Marie Duval ao fenômeno Bilquis Evely e o despertar das “MáTintas”: como a força feminina redefiniu a nona arte.
A história dos quadrinhos, por muito tempo narrada sob uma perspectiva estritamente masculina, atravessa hoje uma transformação profunda e irreversível. O protagonismo das mulheres nos quadrinhos deixou de ser uma promessa para se tornar o pilar de inovação técnica e narrativa da indústria contemporânea. Através de discursos de resistência contra-hegemônicos, a HQ consolidou-se como uma ferramenta de empoderamento, rompendo o silenciamento de mulheres cis e trans e redefinindo o imaginário pop.
Das sombras vitorianas à excelência técnica

A presença feminina na arte sequencial é secular, embora frequentemente obscurecida. No século XIX, a francesa Marie Duval (pseudônimo de Isabelle Emilie de Tessier) já desafiava convenções. Autodidata e atriz, Duval co-criou o icônico Ally Sloper, utilizando um traço grotesco e humorístico que influenciou gerações. Mesmo com o “desenho incorreto” para os padrões acadêmicos da época, sua capacidade de provocar riso e reflexão a colocou como uma das raras designers realmente humorísticas de seu tempo.

A evolução desse legado culmina no cenário atual, onde a excelência técnica é a resposta definitiva ao apagamento histórico. Em 2025, a brasileira Bilquis Evely sagrou-se vencedora do Eisner Awards (o “Oscar” dos quadrinhos) na categoria Melhor Artista/Arte-finalista por seu trabalho em Helen de Wyndhorn. Esta vitória não é isolada; reflete um mercado brasileiro vibrante onde coloristas como Jordie Bellaire também dominam premiações internacionais com obras como Absolute Mulher-Maravilha.
A força da coletividade e o “Tetra” do Norte

Se antes as personagens femininas ocupavam espaços marginalizados ou secundários, as criadoras de hoje utilizam a HQ para projetar novos cenários e experiências. No Brasil, esse movimento ganha contornos épicos com a produção da região Norte. Na 37ª edição do Troféu HQMIX, a obra Onde Habita o Medo, de TAI (PA) e Nilberto Jorge (AM), conquistou três estatuetas, incluindo a de Novo Talento Roteirista para TAI.
Essa vitória coletiva, somada ao prêmio de Luiz Andrade (AM), marcou um histórico “tetra” para a região amazônica, provando que a potência criativa do Norte está redefinindo o quadrinho nacional. A própria estatueta do prêmio, a personagem Tiodora de Marcelo D’Salete, simboliza essa resistência e o resgate de vozes negras e femininas.
A revolução que vem da Amazônia

O legado atual é construído por redes de apoio. O Coletivo MáTinta, inspirado na lenda da Matinta Pereira, foca em acolher mulheres cis e trans, utilizando dinâmicas como o “Telefone Sem Fio Ilustrado” para criar narrativas colaborativas. Nomes como Rayanne Cardoso, que une o digital à aquarela, e Ty Silva, que explora a ancestralidade em obras como Mulheres & Quadrinhos, mostram que a identidade local e a representatividade indígena/cabocla são fundamentais para a renovação da nona arte.
Iniciativas como o projeto Norte em Quadrinhos, de Sâmela Hidalgo, são vitais para dar visibilidade a essas artistas fora do eixo Sul-Sudeste, onde o mercado consumidor ainda se concentra.
A identidade através do traço

A verdadeira revolução das mulheres nos quadrinhos reside na desconstrução da identidade de gênero através do estilo. Quando artistas como Beatriz Miranda aplicam metodologias de design para evitar discursos repetitivos, elas estão reconstruindo a sociedade. A ascensão de Helô D’Angelo ao núcleo jovem adulto da Maurício de Sousa Produções com a personagem Pipa é o símbolo de que o mercado finalmente entendeu: a mulher não é apenas o tema, ela é a voz técnica e autoral que o futuro exige.

As mulheres nos quadrinhos deixaram de pedir licença para ocupar o centro do palco. Das caricaturas vitorianas às vitórias no Eisner e HQMIX, a trajetória é de conquista técnica e política.
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