Unindo horror e ancestralidade, obra do C-4 Studio com edição de Leandro Del Manto desafia o olhar colonial e o eixo tradicional dos quadrinhos.
A Floresta que resiste: A Ajuri dos que não Morrem e a soberania narrativa do Norte
Durante décadas, a representação da Amazônia nos quadrinhos oscilou entre o exótico e o acessório, servindo muitas vezes apenas como um cenário estático para heróis estrangeiros ou alegorias ecológicas superficiais. No entanto, uma nova onda de produção autoral vinda diretamente de Manaus está subvertendo essa lógica, reivindicando o direito de narrar o próprio território sob a lente da fantasia épica e do horror.
Entre os dias 27 e 29 de março de 2026, o Mirante Lúcia Almeida, em Manaus, será o palco do lançamento oficial de “A Ajuri dos que não Morrem”. O evento ocorre dentro da programação da Semana do Quadrinho Nacional de Manaus, um momento simbólico para uma obra viabilizada pelo edital PNAB da Concultura, que busca elevar o patamar da produção local ao explorar referências gráficas da região em uma narrativa de impacto.

Situada séculos antes da chegada dos europeus, a trama nos apresenta uma Amazônia mística onde um “mal sem nome”, uma ameaça de incontáveis pernas que desperta para devorar a vida. O conflito central gira em torno de sete guerreiros convocados por um pajé manao para formar a última linha de defesa da mata. A premissa, embora ressoe estruturas clássicas de grupos de heróis, ganha densidade ao se ancorar no cenário pré-colonial e sobrenatural, fugindo das narrativas urbanas que saturam o mercado.
A força do projeto reside em sua equipe de veteranos. Jucylande Júnior (animador e ilustrador com passagens pela Marvel e DC) e Emerson Medina (jornalista e premiado realizador audiovisual) assinam o roteiro e a arte, trazendo o DNA do Clube dos Quadrinheiros de Manaus para as páginas.
Contudo, é a presença de Leandro Luigi Del Manto na edição que sinaliza a ambição da obra. Del Manto, figura central na história do mercado brasileiro e responsável pela edição nacional de clássicos como Sandman e Akira, empresta seu olhar curatorial para garantir que o épico amazonense tenha o mesmo rigor técnico de grandes produções internacionais.
Ao utilizar o formato 21 cm X 29,7 cm com miolo em preto e branco, a obra evoca a tradição das grandes revistas de fantasia dos anos 70 e 80, mas preenche esse espaço com uma identidade amazônica autêntica, processada pelo C-4 Studio, que desde 2018 atua como um polo de resistência criativa no Norte.
A escolha do gênero horror para tratar da ancestralidade é uma manobra astuta. Ao invés de uma abordagem didática ou puramente folclórica, o C-4 Studio utiliza o medo e o épico para conferir dignidade aos povos originários como protagonistas de sua própria cosmologia. A colaboração com um editor do calibre de Del Manto sugere que o quadrinho amazonense parou de pedir licença para entrar no cânone nacional, ele está construindo seu próprio templo.
O sucesso de obras como esta pode consolidar Manaus como um dos principais polos de exportação de conteúdo autoral do Brasil, provando que o fomento público, quando aliado a talentos veteranos, gera resultados que transcendem o regionalismo. O impacto a médio prazo pode ser a abertura de portas para mais narrativas que tratem a história do Brasil não como uma sucessão de tragédias coloniais, mas como um vasto universo de possibilidades fantásticas.
Ao final, resta uma provocação: em um mercado tão saturado por fórmulas de super-heróis importadas, seremos capazes de reconhecer nos sete guerreiros manao os ícones de um novo imaginário nacional? O debate está aberto no Mirante.

A Ajuri dos que não Morrem
Jucylande Júnior, Emerson Medina, Geovan Motter, Jota Taylor e Leandro Luigi Del Manto.
C-4 Studio
R$ 45,00
Miolo PB – 64 páginas