Walter Neves e equipe investigam como a capacidade de simbolizar e criar narrativas nos separou definitivamente do resto do reino animal.
A ciência que decifra a alma humana
No vasto cenário da ciência brasileira, poucos nomes ressoam com a autoridade de Walter Neves. Conhecido internacionalmente por seus estudos sobre Luzia, o fóssil humano mais antigo das Américas e por propor novos modelos de ocupação do continente, Neves transcende a academia para se tornar um divulgador científico de peso. Em sua mais recente empreitada editorial pela Editora Gaia, a segunda edição de A Origem do Significado: Uma Abordagem Paleoantropológica, ele se une à antropóloga Eliane Sebeika Rapchan e ao pesquisador Lukas Blumrich para enfrentar uma das perguntas mais viscerais da nossa espécie: afinal, o que nos faz humanos?.

Para além da fome e do medo
A obra propõe uma investigação interdisciplinar que busca o exato momento em que nossos ancestrais deixaram de olhar para o mundo apenas através do prisma da sobrevivência imediata. Através de um diálogo entre arqueologia, primatologia e antropologia, os autores rastreiam a transição da “visão da fome” para o “brilho da imaginação”, tentando identificar quando a capacidade de atribuir sentido à existência se tornou o nosso maior diferencial evolutivo.
O poder do símbolo
A grande força do livro reside em sua coragem intelectual de desafiar dogmas. Os autores questionam se características físicas tradicionalmente celebradas, como o bipedismo e o aumento do volume cerebral, são suficientes para nos definir. Para o trio, o verdadeiro divisor de águas é a capacidade de criar significados e narrativas para os fatos do mundo, permitindo uma vida interior que vai além do uso prático de objetos.
A qualidade da escrita equilibra o rigor científico com uma fluidez admirável, tornando temas complexos como a “teoria da mente” e a “cognição” acessíveis ao público leigo. Estruturalmente, o livro é conciso, com 144 páginas divididas em três capítulos que levam o leitor do conceito de humanidade até as evidências de comportamento simbólico anteriores ao Paleolítico Superior.

A inclusão de um caderno iconográfico é um ponto alto, pois permite que o leitor visualize os artefatos e registros arqueológicos discutidos, ancorando a teoria na materialidade dos ossos e pigmentos. No entanto, por ser uma obra de fôlego curto, alguns leitores mais ávidos por detalhes exaustivos podem sentir que certos tópicos poderiam ser ainda mais explorados, embora a extensa bibliografia fornecida compense essa concisão.
Comparativamente, a obra se destaca de manuais técnicos por sua sensibilidade literária ao tratar da subjetividade e da cultura como fatores ecológicos fundamentais para a nossa diferenciação. É um livro que não apenas informa, mas provoca uma reflexão filosófica sobre a nossa própria consciência.
• Pontos Fortes: Autoridade inquestionável dos autores; linguagem acessível sem perder o rigor; excelente material visual de apoio; abordagem interdisciplinar inovadora.
• Pontos Fracos: A brevidade da obra (144 páginas) pode deixar o leitor especialista desejando uma análise mais exaustiva de certos dados arqueológicos específicos.
A Origem do Significado é leitura obrigatória para estudantes, educadores e qualquer pessoa fascinada pela pergunta “quem somos nós?”. É uma obra que dignifica a ciência brasileira e nos convida a admirar a complexidade da nossa própria origem.
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