No século XVII, a ganância estrangeira ganha presas em uma HQ de terror clássico que transforma o explorador em um monstro sedento por sangue.
O gênero de horror no Brasil sempre encontrou terreno fértil em nossas lendas e matas, mas a Panela Comics decidiu olhar para o passado colonial para resgatar um monstro clássico. “Um Vampiro na Amazônia”, obra escrita e desenhada por Roberto Mendes (com colaboração de Robson Marone), mergulha no século XVII para entregar uma narrativa que tenta equilibrar o terror gótico com as raízes históricas do Grão-Pará.
A trama nos transporta para a antiga Feliz Lusitânia, hoje Belém do Pará. Acompanhamos a chegada de Boian, um mercador estrangeiro sanguinário que desembarca no Novo Mundo para aterrorizar as cercanias da colônia. Mais do que um simples comerciante, Boian é um agente do caos que espalha o medo entre os povos locais enquanto busca saciar sua sede literal e figurativa.

O roteiro de Mendes não busca reinventar a roda, seguindo uma estrutura narrativa que ecoa diretamente o clássico de Bram Stoker: o monstro que chega em terra estrangeira via navio para predar a população local. A história é conduzida majoritariamente por longas legendas narrativas, com poucos diálogos, o que confere um ritmo solene, mas que pode parecer denso para alguns leitores.
Visualmente, a obra é um deleite para os fãs da “velha guarda”. A arte de Roberto Mendes evoca os grandes mestres do quadrinho de terror brasileiro e demonstra uma influência clara do traço de John Buscema. O uso de hachuras cria um clima sombrio e opressor, essencial para o gênero. O destaque técnico vai para a impressão interna em preto e branco, que valoriza o uso do chiaroscuro e dá relevo às sombras da floresta.

O ponto mais alto da obra reside na construção de seu protagonista. Boian é representado como uma figura disforme, funcionando como um retrato fiel do colonizador. Ele é o estrangeiro que despreza os povos originários e chega para “sugar” os recursos da terra. Aqui, o sangue torna-se o tema central, uma metáfora para a ganância desenfreada por ouro e madeira.
Entretanto, a obra escorrega na representação dos povos indígenas. Infelizmente, a HQ mantém o protagonismo nos colonizadores, enquanto os povos originários são retratados de forma datada: homens como vítimas ou vilões, e mulheres apenas como cortesãs,. Em uma produção local, a expectativa de que a floresta fosse mais que um simples cenário passivo acaba gerando decepção. Além disso, a finalização parece apressada em certos momentos, apresentando erros anatômicos visíveis, como personagens com membros a mais, o que a coloca em desvantagem técnica quando comparada a outras obras do autor, como Necroman.
• Pontos Fortes: A poderosa metáfora do colonizador como um vampiro parasita; a arte inspirada em clássicos e a excelente qualidade do papel e formato grande, que tornam a leitura agradável,.
• Pontos Fracos: A capa com cores saturadas que ofusca a arte original; erros de finalização técnica e a abordagem estereotipada e secundária dos povos indígenas,.
“Um Vampiro na Amazônia” é uma obra de contrastes. Se por um lado brilha na atmosfera visual e na crítica social à exploração colonial, por outro falha em dar voz e profundidade aos habitantes originais da terra que retrata. É uma leitura fortemente recomendada para o quadrinista tradicional e para fãs de horror clássico que apreciam uma estética densa e sombria.
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