janeiro 31, 2026
Literatura

O mistério de Colares: rimas e luzes na Amazônia

A capa de “Os ETs de Colares” combina a arte de Carlos Alpheu com a urgência dos eventos ufológicos de 1977. Imagem/Gerado por IA

A obra de Francisco Mendes transpõe o pânico do fenômeno “Chupa-Chupa” de 1977 para a poesia de cordel, unindo tradição secular e mistério ufológico.

A literatura de cordel, com suas raízes fincadas na Idade Média portuguesa, viajou séculos para encontrar no Brasil especialmente no Nordeste sua voz mais autêntica e adaptável. O que antes servia para alfabetizar e entreter comunidades através de crônicas cotidianas e do imaginário popular, ganha agora um fôlego investigativo. Em “Os ETs de Colares”, o autor Francisco Mendes resgata essa tradição para documentar um dos episódios mais enigmáticos da história brasileira: as aparições ufológicas no Pará na década de 70.

O cordel, lançado originalmente durante o I Congresso Ufológico de Colares, narra os eventos de setembro de 1977. Através de versos, a obra percorre o pavor provocado pelo fenômeno conhecido como “Chupa-Chupa” e o subsequente desdobramento militar da Operação Prato, tudo sob a perspectiva sensível de quem vive e respira a cultura ribeirinha.

Foto/Emerson Coe

Francisco Mendes utiliza a métrica e a rima do cordel com maestria, empregando o que as fontes chamam de “poesia do ribeirinho”. Essa escolha estética é fundamental, pois retira o relato do campo puramente técnico da ufologia e o insere na tradição oral e literária da região amazônica.

O universo da obra é a Ilha de Colares, retratada não apenas como um cenário geográfico, mas como um espaço de choque cultural e histórico. As ilustrações de Carlos Alpheu, reforçam o peso visual e a identidade nacional do projeto, transformando eventos assustadores em arte narrativa.

Foto/Emerson Coe

O tema central é a adaptação da cultura local frente ao desconhecido. Ao contrário de relatos jornalísticos secos, a estrutura narrativa aqui é fluida e rítmica, permitindo que os acontecimentos que “assombram aquela ilha desde então” sejam compreendidos através de uma ótica popular e poética.

Enquanto o cordel tradicional frequentemente foca em heróis do sertão ou contos morais, Mendes inova ao abraçar a ufologia científica, aproximando o gênero de obras contemporâneas que buscam preservar a memória regional através de novos significados.

Pontos Fortes: A originalidade de tratar ufologia através de cordel; a fidelidade cultural à região de Colares; as ilustrações que dialogam perfeitamente com o texto.

Pontos Fracos: Nota do redator: Pela brevidade típica dos folhetos de cordel, leitores que buscam um relatório técnico exaustivo podem sentir falta de detalhes científicos mais densos.

“Os ETs de Colares” é uma leitura essencial para entusiastas do mistério e da literatura regionalista. Francisco Mendes prova que o cordel continua sendo uma ferramenta poderosa para retratar a alma do país, unindo o céu e a terra em versos inesquecíveis.

Recomendado para: Leitores de cultura popular, ufólogos e interessados em história da Amazônia.

Avaliação: 4.5 de 5.

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Ilustrador, cartunista e quadrinista com mais de 30 anos de carreira. Premiado internacionalmente, destaca‐se pela crítica ácida e humor irreverente. Agora, como editor do HQPOP, ele traduz a cultura pop com ousadia e criatividade.

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