janeiro 10, 2026
Literatura

Sinfonia da desilusão: o voo de Menalton Braff

O escritor Menalton Braff utiliza a estrutura tripartite da sonata de Beethoven para reger um drama familiar sobre silêncios e ressentimentos. Foto/Emerson Coe

Inspirado em Beethoven, romance disseca o vazio existencial e os ressentimentos de uma família de classe média em crise.

Aos 86 anos e com uma carreira sólida que lhe rendeu os prêmios Jabuti e Machado de Assis, o escritor gaúcho Menalton Braff prova que sua verve literária permanece afiada. Radicado no interior paulista há décadas, Braff lança seu 32º livro, Sonata Patética, consolidando-se como um dos nomes centrais da nossa literatura contemporânea. A obra chega pelo selo Ópio Literário, da Degustadora Editora, apresentando um autor que domina a técnica do romance com a precisão de um maestro.

A trama mergulha no turbulento universo da família de três irmãos: Júlia, Marco Aurélio e Augusto. O equilíbrio frágil dessa estrutura é rompido pela figura de Olívia, uma secretária que se torna o eixo de tensões, desejos e suspeitas de traição que assolam os protagonistas. Entre silêncios e mágoas acumuladas, Braff constrói um drama que evoca a máxima de que cada família infeliz o é à sua própria maneira.

A qualidade da escrita de Braff é um dos pilares do livro. O autor utiliza uma narrativa a três vozes que se alterna em capítulos curtos, espelhando a estrutura da Sonata nº 8 de Beethoven, a “Patética”. Assim como na composição musical, cada narrador corresponde a um dos movimentos da peça, conferindo um ritmo de “fugas” e ecoando sentimentos que transitam entre o relato direto e o fluxo de consciência. A prosa é elegante e evita o excesso de metáforas, optando por um texto límpido que, por vezes, integra diálogos sem o uso de travessões, elevando a fluidez da leitura.

A construção dos personagens oferece um retrato mordaz de uma classe média alicerçada em valores conservadores e elitistas. Marco Aurélio é o médico que busca manter um verniz de marido leal, enquanto o caçula Augusto é o advogado bem-sucedido que ostenta seu status social. Júlia, por sua vez, carrega o peso de uma maternidade frustrada, servindo como mediadora em um cenário de miséria espiritual que se esconde sob o sucesso profissional. Braff explora essa “encruzilhada de exuberância sociointelectual” com uma autoridade que remete aos retratos familiares de cineastas como Ingmar Bergman.

Foto/Emerson Coe

Entretanto, o livro apresenta certas assimetrias. Embora as figuras masculinas sejam aprofundadas com riqueza, o peso narrativo de Júlia parece minguar ao longo da obra, e Olívia acaba circunscrita ao papel de sedutora passiva, vista apenas sob o filtro dos olhos masculinos. Essa escolha narrativa, que pode ser lida como uma denúncia da marginalidade imposta ao feminino, deixa no leitor uma sensação de que a interioridade dessas mulheres poderia ter sido mais explorada.

Apesar dessas irregularidades, os pontos fortes superam largamente os fracos. A estrutura musical é inovadora e a crítica social é direta, sem ser pedante. Menalton Braff entrega um romance que não apenas conta uma história, mas diagnostica um mal crônico de uma parcela da sociedade brasileira.

Sonata Patética é ideal para leitores que apreciam dramas psicológicos densos, estruturas narrativas experimentais e uma literatura que não tem medo de encarar o vazio das relações humanas. É uma obra indispensável para quem deseja compreender a maestria de um dos nossos maiores autores vivos.

Avaliação: 4 de 5.

Editor
Ilustrador, cartunista e quadrinista com mais de 30 anos de carreira. Premiado internacionalmente, destaca‐se pela crítica ácida e humor irreverente. Agora, como editor do HQPOP, ele traduz a cultura pop com ousadia e criatividade.

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