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“Spix e Martius na Terra das Palmeiras”: como uma expedição virou a saga mais instigante dos quadrinhos nacionais.

Em uma ambiciosa série em oito partes, o quadrinista Mig Mendes adapta a lendária travessia de dois naturalistas alemães pelo interior do país, unindo aventura humana, rigor documental e um olhar crítico sobre as feridas abertas de uma nação em nascimento.

“Spix e Martius na Terra das Palmeiras”: como uma expedição virou a saga mais instigante dos quadrinhos nacionais.

Passar a noite de Natal encurralado em um barraco improvisado, sob a violência de uma tempestade de verão no caminho para o Santuário de Aparecida, não costuma ser a cena que ilustra compêndios acadêmicos sobre botânica e zoologia. No entanto, é exatamente nesse atrito entre o sublime e o desconforto que pulsa o coração de “Spix e Martius na Terra das Palmeiras – Episódio 1: Os Grandes Prazeres”, nova história em quadrinhos com roteiro e arte de Mig Mendes. Ao transpor para as páginas em preto e branco a colossal expedição dos cientistas bávaros Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius pelo Brasil do século XIX, a obra rompe com o distanciamento reverente das ilustrações de época para entregar uma jornada física, caótica e profundamente humana.

Capa da nova história em quadrinhos de Mig Mendes, que explora a expedição de Spix e Martius.
Imagem/Reprodução

Longe de funcionar como um livro didático ilustrado, a intenção de Mig Mendes é desbravar os mais de 10 mil quilômetros percorridos pelos exploradores entre 1817 e 1820 como uma verdadeira saga em oito episódios. A obra pretende discutir a formação da sociedade brasileira poucos anos antes da Independência, despindo a expedição científica de qualquer verniz burocrático. A proposta é colocar o leitor no lombo da mula ao lado dos viajantes para testemunhar o deslumbramento de uma terra desconhecida, confrontando a riqueza biológica do território com a crueldade estrutural das instituições coloniais que sustentavam aquele ecossistema.

Capa da nova história em quadrinhos de Mig Mendes, que explora a expedição de Spix e Martius.
Imagem/Reprodução

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Com 40 páginas em preto e formato 21 × 28 cm, o episódio inaugural adota uma estrutura rítmica que valoriza o passo da tropa e a vivência em trânsito. A grande sacada dramática de Mig Mendes reside na caracterização de Carl von Martius: um jovem cientista e farmacêutico de apenas 23 anos cuja impetuosidade e curiosidade desmedida funcionam como o verdadeiro motor dos perigos da viagem. A narrativa opta por dispensar a figura de vilões convencionais; os antagonistas são as decisões precipitadas, as intempéries, a fome e o risco iminente de doenças e deserções. A linguagem visual explora a crueza dos ambientes e a expressividade dos encontros, equilibrando a leveza do entusiasmo juvenil perceptível nas cantorias com lavradores locais com a atmosfera pesada do isolamento do interior paulista e fluminense.

Capa da nova história em quadrinhos de Mig Mendes, que explora a expedição de Spix e Martius.
Imagem/Reprodução

O livro aborda temas de assombrosa urgência contemporânea. Ao reconstituir as observações de Martius, o quadrinho evidencia a dependência do trabalho escravizado, a violência praticada contra os povos originários, a destruição desenfreada da natureza e os privilégios assegurados pelo aparato estatal. Ao mesmo tempo, destaca a diversidade cultural e a capacidade do jovem botânico de se encantar pela música popular e pelos conhecimentos tradicionais das populações nativas. Personagens como Basílio, jovem escravizado originário de Benguela, e Philipe, o criado francês, garantem que a dinâmica de poder e convivência não seja homogeneizada, expondo a pluralidade de vozes que compunham aquela marcha.

Capa da nova história em quadrinhos de Mig Mendes, que explora a expedição de Spix e Martius.
Imagem/Reprodução

Este lançamento representa uma expressiva inflexão temática na trajetória artística de Mig Mendes. Veterano dos quadrinhos nacionais, com presença na equipe de Ziraldo desde 1990 e passagens como roteirista por publicações infantis de Mauricio de Sousa e do Sítio do Picapau Amarelo, o autor traz a bagagem de obras autorais como Os Migonautas e A Princesa dos Brasilossauros para mergulhar no gênero do “Brasil dos viajantes”. A gênese do projeto remonta a 2022, quando o autor começou a estudar detidamente Viagem ao Brasil, clássico deixado pelos naturalistas, dedicando um ano ao roteiro e meses à produção visual da obra. O resultado ganha as ruas no momento em que os quadrinhos brasileiros de não-ficção e reconstituição histórica reafirmam sua maturidade perante o público leitor.

Capa da nova história em quadrinhos de Mig Mendes, que explora a expedição de Spix e Martius.
Mig Mendes que lançará ‘Spix e Martius na Terra das Palmeiras’ durante a FIQ deste ano. Foto/Divulgação.

“Spix e Martius na Terra das Palmeiras” dialoga tanto com aficionados pela história e antropologia brasileiras quanto com leitores ávidos por clássicas narrativas de exploração e aventura. É uma porta de entrada fascinante para estudantes, apreciadores de quadrinhos históricos e leitores de graphic novels que buscam tramas adultas, inteligentes e livres de maniqueísmos fáceis.

Capa da nova história em quadrinhos de Mig Mendes, que explora a expedição de Spix e Martius.
imagem/Reprodução.

A grande contribuição de “Os Grandes Prazeres” para os quadrinhos e a literatura gráfica reside em dessacralizar os registros científicos do século XIX, devolvendo-lhes o calor do suor, da poeira e da dúvida moral. Ao final da leitura, fica a reflexão sobre como muitas das fissuras socioambientais apontadas por Martius há mais de dois séculos continuam a definir as dores e impasses do Brasil contemporâneo. Seu legado potencial é consolidar uma crônica visual de fôlego que prova que a nossa memória histórica, quando bem contada, possui a força de um épico.

Quadrinhos Independente
Roteiro: Mig Mendes
Arte: Mig Mendes
Formato: 40 páginas P/B 21 × 28 cm, brochura
Sinopse da Obra

Mig Mendes lança “Os Grandes Prazeres”, primeiro episódio de uma série em oito partes sobre a expedição dos naturalistas alemães pelo Brasil, durante o FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, em novembro.

Emerson Coe

Emerson Coe é jornalista e editor do HQPOP, portal especializado em cultura pop, quadrinhos, literatura, cinema e entretenimento. Atua na produção de reportagens, entrevistas e análises sobre o universo geek e a indústria cultural.

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