Antologia “Territórios Compartilhados” une ancestralidade e indigenafuturismo para romper silenciamentos e ocupar o cenário nacional das HQs com protagonismo
O despertar de novos imaginários
O cenário das histórias em quadrinhos no Brasil acaba de ganhar um marco de autodeterminação estética e política. A antologia Territórios Compartilhados, viabilizada pelo edital Rumos Itaú Cultural 2023-2024, surge não apenas como uma publicação, mas como um movimento de ocupação. Em um momento onde a cultura pop global busca por diversidade real, esta obra rompe com a lógica do “etnoentretenimento” e do olhar eurocêntrico para celebrar a ancestralidade através do protagonismo indígena absoluto.
Resistência e inovação em sete atos

A coletânea, organizada por Eá Borum Krenak, reúne artistas de diversos povos originários para transformar as HQs em um espaço de resistência contra o silenciamento histórico. Com prefácio do imortal Daniel Munduruku e design de Elza Keiko, o projeto apresenta sete narrativas que transitam entre a tradição oral e o indigenafuturismo.

A obra desafia o leitor a “desaprender” visões coloniais. Enquanto o mercado muitas vezes reduz culturas indígenas a estereótipos folclóricos, Territórios Compartilhados entrega pluralidade:
- Inovação Linguística: A HQ “Djepotá” traz os primeiros diálogos totalmente em língua guarani no meio.
- Estética Abstrata: Em “Os Sons da Mata”, Merremii Karão Jaguaribaras utiliza taowás (escrita visual ancestral) para criar um quadrinho abstrato.
- Fronteiras de Gênero: A obra explora do folk-terror ao indigenafuturismo, fundindo tecnologia e ancestralidade em histórias como “Tecnoanhang”.
Impacto na Indústria e Cultura O impacto é tanto técnico quanto simbólico. Ao registrar línguas maternas e narrativas tradicionais, o projeto atua na salvaguarda do patrimônio imaterial. Além disso, traz à tona pautas contemporâneas urgentes, como a visibilidade de pessoas indígenas com deficiência (Coletivo Acessibilindígena) e os impactos da mineração em territórios tradicionais. É a prova de que a cosmovisão originária dialoga plenamente com a modernidade e a ficção científica.

A força de Territórios Compartilhados reside na recusa em ser apenas “temática”. A coordenação do projeto é precisa ao afirmar que essas histórias operam em um “tempo contínuo”, onde passado e futuro se tocam. Para a HQPOP, o álbum sinaliza uma maturidade necessária no mercado editorial brasileiro: o quadrinho deixa de ser uma ferramenta de observação externa para se tornar o suporte de uma voz que nunca esteve calada, mas que agora exige os meios de produção. É uma obra que não pede licença para existir; ela redefine o que entendemos por “quadrinho nacional” ao injetar um rigor técnico e uma carga afetiva que as grandes editoras comerciais muitas vezes negligenciam.
A projeção para as narrativas indígenas é de expansão e reconhecimento institucional. Figuras centrais do projeto, como Daniel Munduruku, já ocupam espaços históricos como a Academia Paulista de Letras. O público deve observar de perto o crescimento do indigenafuturismo e como esses artistas, agora com o suporte de selos como o Rumos Itaú Cultural, influenciarão novas gerações de roteiristas e ilustradores urbanos e de aldeias.
Estamos prontos para abandonar o olhar colonizado e aceitar que o futuro da cultura pop brasileira pode estar profundamente enraizado em saberes milenares?
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