janeiro 1, 2026
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A artista que usa HQs para desafiar a colonização

A artista e comunicadora indígena Tai utiliza as redes sociais como plataforma para o “artivismo”, unindo estética ancestral e crítica social. Imagem/Reprodução Redes Sociais

Descubra como as obras da ilustradora paraense TAI transformam o Instagram em um território de resistência e identidade amazônica legítima.

Se você acha que quadrinhos se resumem a heróis de capa salvando cidades americanas, está na hora de atualizar seu feed. No coração da produção independente brasileira, uma voz vinda do Pará está usando o traço e o balão para retomar um território que sempre foi seu: o imaginário amazônico. TAI, uma artista visual indígena em contexto urbano, transformou seu perfil no Instagram em um campo de batalha contra estereótipos e silenciamentos.

O trabalho de Tai não é apenas “bonitinho”; ele é uma ferramenta de artivismo. Esse termo, que mistura arte com ativismo político, define bem a trajetória dessa paraense que já soma mais de 16 mil seguidores e colaborações com grandes empresas. Recentemente, a força de suas narrativas foi tema de uma pesquisa premiada no 36.º Troféu HQ Mix, conduzida por Fabiana Oliveira Gillet, que destaca como Tai utiliza a decolonialidade para desafiar a lógica dominante nos quadrinhos nacionais.

Onde a arte encontra o protesto

Diferente das produções tradicionais influenciadas pelo mercado europeu ou americano, as HQs de TAI buscam o que os especialistas chamam de “giro decolonial”. Isso significa que ela não está apenas desenhando; ela está questionando por que, em um Estado laico, quase todos os feriados nacionais são católicos, ou denunciando os perigos reais da mineração de ouro e a contaminação por mercúrio nos rios.

Em uma de suas tiras mais impactantes, TAI critica o projeto de lei PL 191/2020, que visava regular a mineração em terras indígenas. Com tons terrosos e uma narrativa vertical fluida, ela conecta o prato de peixe de cada dia à destruição ambiental, provando que a luta indígena é, na verdade, uma luta de todos nós.

“Nós por nós”: A voz do Norte

Outro pilar fundamental da obra de Tai é o combate à xenofobia e à exploração histórica da região Norte pelo eixo Sul-Sudeste. Em sua ilustração “Nós por nós”, ela usa mãos entrelaçadas e elementos da flora amazônica para pregar a auto-organização e a resistência contra a apropriação cultural. Para Tai, a Amazônia não é um “território exótico e vazio” para ser explorado, mas um lugar vivo, habitado por pessoas que têm o direito de contar suas próprias histórias.

No fim das contas, as HQs de TAI funcionam como uma tecnologia de “re-existência”. Ela nos convida a ver a Amazônia não através dos olhos de viajantes estrangeiros ou repórteres do Sudeste, mas pelo olhar de quem vive a floresta e a cidade no Norte.

Para entender o poder dessa nova onda de quadrinhos nacionais, imagine que a cultura pop é uma grande colcha de retalhos: por muito tempo, tentaram usar apenas fios importados, mas artistas como TAI estão trazendo as cores, as fibras e as vozes da floresta para costurar uma história muito mais rica e verdadeira.

Fonte: “Decolonialidad en los cómics de una artista visual de Pará”, de autoria de Fabiana Oliveira Gillet. Publicado na revista acadêmica CuCo, Cuadernos de Cómic, n.º 25, com data de 2025.

Editor
Ilustrador, cartunista e quadrinista com mais de 30 anos de carreira. Premiado internacionalmente, destaca‐se pela crítica ácida e humor irreverente. Agora, como editor do HQPOP, ele traduz a cultura pop com ousadia e criatividade.

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