Descubra como as obras da ilustradora paraense TAI transformam o Instagram em um território de resistência e identidade amazônica legítima.
Se você acha que quadrinhos se resumem a heróis de capa salvando cidades americanas, está na hora de atualizar seu feed. No coração da produção independente brasileira, uma voz vinda do Pará está usando o traço e o balão para retomar um território que sempre foi seu: o imaginário amazônico. TAI, uma artista visual indígena em contexto urbano, transformou seu perfil no Instagram em um campo de batalha contra estereótipos e silenciamentos.
O trabalho de Tai não é apenas “bonitinho”; ele é uma ferramenta de artivismo. Esse termo, que mistura arte com ativismo político, define bem a trajetória dessa paraense que já soma mais de 16 mil seguidores e colaborações com grandes empresas. Recentemente, a força de suas narrativas foi tema de uma pesquisa premiada no 36.º Troféu HQ Mix, conduzida por Fabiana Oliveira Gillet, que destaca como Tai utiliza a decolonialidade para desafiar a lógica dominante nos quadrinhos nacionais.
Onde a arte encontra o protesto
Diferente das produções tradicionais influenciadas pelo mercado europeu ou americano, as HQs de TAI buscam o que os especialistas chamam de “giro decolonial”. Isso significa que ela não está apenas desenhando; ela está questionando por que, em um Estado laico, quase todos os feriados nacionais são católicos, ou denunciando os perigos reais da mineração de ouro e a contaminação por mercúrio nos rios.
Em uma de suas tiras mais impactantes, TAI critica o projeto de lei PL 191/2020, que visava regular a mineração em terras indígenas. Com tons terrosos e uma narrativa vertical fluida, ela conecta o prato de peixe de cada dia à destruição ambiental, provando que a luta indígena é, na verdade, uma luta de todos nós.

“Nós por nós”: A voz do Norte
Outro pilar fundamental da obra de Tai é o combate à xenofobia e à exploração histórica da região Norte pelo eixo Sul-Sudeste. Em sua ilustração “Nós por nós”, ela usa mãos entrelaçadas e elementos da flora amazônica para pregar a auto-organização e a resistência contra a apropriação cultural. Para Tai, a Amazônia não é um “território exótico e vazio” para ser explorado, mas um lugar vivo, habitado por pessoas que têm o direito de contar suas próprias histórias.
No fim das contas, as HQs de TAI funcionam como uma tecnologia de “re-existência”. Ela nos convida a ver a Amazônia não através dos olhos de viajantes estrangeiros ou repórteres do Sudeste, mas pelo olhar de quem vive a floresta e a cidade no Norte.
Para entender o poder dessa nova onda de quadrinhos nacionais, imagine que a cultura pop é uma grande colcha de retalhos: por muito tempo, tentaram usar apenas fios importados, mas artistas como TAI estão trazendo as cores, as fibras e as vozes da floresta para costurar uma história muito mais rica e verdadeira.
Fonte: “Decolonialidad en los cómics de una artista visual de Pará”, de autoria de Fabiana Oliveira Gillet. Publicado na revista acadêmica CuCo, Cuadernos de Cómic, n.º 25, com data de 2025.




