Uma análise da reportagem em quadrinhos que utiliza a fotografia e o desenho para capturar as cicatrizes da transposição no Velho Chico.
O rio como documento e devaneio
Existe uma tensão inerente quando tentamos traduzir a vastidão do sertão para o espaço confinado do papel. O “problema” que São Francisco se propõe a resolver não é apenas informativo, mas ontológico: como representar uma obra de engenharia faraônica, a Transposição do Rio São Francisco sem perder de vista as micro-histórias que correm à margem do concreto. A obra de Gabriela Güllich e João Velozo não se contenta em ser apenas um relato; ela se manifesta como uma geografia de afetos.

Ao percorrerem mais de 1.000 km em 15 dias, de Belém do São Francisco a Monteiro, os autores não buscaram apenas dados, mas a textura da vida sob o impacto da seca e da intervenção humana. O que emerge não é um panfleto político, mas uma experiência sensorial que coloca o leitor no banco do passageiro dessa expedição.
Entre o índice e o ícone
A grande força motriz de “São Francisco” reside na sua arquitetura narrativa. A obra subverte a expectativa do jornalismo em quadrinhos tradicional frequentemente comparado ao trabalho de Joe Sacco ao integrar a fotografia de João Velozo não como um simples anexo, mas como parte integrante da gramática visual.
A montagem das páginas estabelece um diálogo constante: enquanto a fotografia carrega o “peso do real” e a crueza da paisagem, o traço de Güllich oferece a subjetividade necessária para traduzir silêncios e memórias. Como os próprios autores definem, a foto não valida o desenho; ambas constroem a narrativa em conjunto. O ritmo é ditado por essa alternância, onde o tempo narrativo se dilata nos momentos de contemplação da “Seca” e se torna urgente e estruturado no capítulo final, “Obra”.

Inserida no cenário do quadrinho independente brasileiro, a obra rapidamente se destacou por sua maturidade, culminando no Troféu HQ Mix de melhor publicação independente de autor em 2020. No panorama atual, onde o jornalismo em quadrinhos ganha fôlego em plataformas como a Revista O Grito!, Sumaúma e VICE Brasil, “São Francisco” surge como um pilar de fôlego longo.
A decisão da Conrad Editora em republicar a obra em 2025 confirma o valor perene deste projeto. Ele dialoga com uma tradição de busca pela identidade brasileira, mas o faz através de uma lente contemporânea que une os direitos humanos de Velozo à narrativa gráfica de Gabriela Güllich.
A água que divide
Tematicamente, a HQ divide-se em uma tríade simbólica: “Água”, “Seca” e “Obra”. Essa estrutura permite uma análise profunda da política sobre o território. A obra revela que a Transposição não é apenas um fluxo de água, mas um fluxo de poder que altera a identidade do povo ribeirinho. O “valor real” de “São Francisco” está em sua recusa em oferecer respostas fáceis. Ela acerta ao humanizar os números da engenharia, transformando a transposição em uma questão de rostos e nomes.
Talvez o único ponto onde a obra desafia o leitor é na sua densidade; a transição entre o registro documental e a interpretação artística exige uma leitura atenta, quase arqueológica. Mas é justamente nessa exigência que reside sua sofisticação.
O fluxo que permanece
“São Francisco” não é um guia sobre a transposição, nem um relatório técnico. É uma reflexão sobre a permanência e a mudança. No cenário atual de saturação de imagens efêmeras, Güllich e Velozo propõem um registro que interrompe o fluxo para que possamos, finalmente, olhar para o rio. O maior mérito da obra talvez seja provar que, no sertão, o traço do artista e o clique do fotógrafo são tão necessários para a sobrevivência da memória quanto a própria água é para a terra.

São Francisco
Gabriela Güllich e João Velozo
Editora: Conrad
Preço de capa: R$ 79,90
112 páginas
Leia mais em HQPOP:
HQ no Catarse usa erotismo punk e estética de zine
A medida do verbo: a reconstrução visual do sagrado e do profano