“Lule Lucky” inaugura selo LGBTQPN+ da Tábula com narrativa adulta e visual ancorado na contracultura dos anos 80 e 90

Escrito e desenhado por Luiza Lemos, o trabalho apresenta ecos reconhecíveis de Jamie Hewlett, sobretudo na energia gráfica e na construção de personagens, ainda que sem se apoiar integralmente nesse repertório. Em parceria com Drigo, frequentemente associado a Laerte Coutinho, o traço nesta edição se desloca para uma textura mais densa e detalhada, que remete, em certos momentos, ao acabamento de Paolo Eleuteri Serpieri. O quadrinho marca ainda a inauguração do selo Diversa Comics, braço da Editora Tábula dedicado a autores LGBTQPN+.

Com 32 páginas, o projeto se apresenta como um zine de vocação explicitamente punk. Isso não se traduz apenas no tema, mas na promessa de uma abordagem estética menos polida: traço agressivo, possível fragmentação narrativa e um diálogo direto com publicações marginais das décadas de 1980 e 1990.
A HQ se estrutura em torno de dois eixos, rebeldia e sexualidade são tratados sem mediação para o leitor mainstream. A classificação adulta não é um detalhe, mas parte central da proposta.
A evocação das subculturas oitentistas e noventistas levanta uma questão recorrente em projetos desse tipo: trata-se de resgate ou de reprodução estética?
Sem acesso integral à obra, o material de divulgação sugere forte dependência de códigos já estabelecidos, o que pode tanto funcionar como homenagem quanto limitar a originalidade da narrativa. É um equilíbrio delicado, especialmente em trabalhos que se apresentam como transgressores.
A campanha no Catarse funciona em modelo de pré-venda, com foco na viabilização da tiragem física.
Detalhes principais:
- 32 páginas, formato 16 x 23 cm
- Capa cartão, miolo em preto e branco
- Envio previsto para junho de 2026
Entre os incentivos, estão frete grátis e brindes estratégias já consolidadas nesse tipo de campanha, que buscam compensar o risco assumido pelo apoiador.
“Lule Lucky” se insere em uma linhagem específica de quadrinhos: aqueles que operam mais como gesto do que como produto acabado. O zine, historicamente, é um espaço de urgência criativa e isso parece estar no DNA do projeto.
Ao mesmo tempo, há um paradoxo inevitável: ao migrar para o financiamento coletivo com acabamento editorial definido, o zine deixa de ser completamente marginal e passa a negociar com expectativas de mercado.
O lançamento do selo Diversa Comics é, possivelmente, o elemento mais relevante aqui. Mais do que a HQ em si, ele sinaliza uma tentativa de institucionalizar vozes que tradicionalmente operavam à margem o que pode ampliar alcance, mas também impor novas limitações.
Para leitores interessados em produção independente com viés autoral e temáticas LGBTQPN+, o projeto oferece exatamente o que promete: um objeto alinhado à tradição do quadrinho underground.


As Aventuras de Lule Lucky – Porn Punk Zine
Luiza Lemos e Drigo
Editora Tábula
32 páginas