Nesta peça inédita no Brasil, a mestre do drama modernista troca o fluxo de consciência pela sátira mordaz contra a elite vitoriana.
Uma faceta inesperada da mestre
Virginia Woolf é quase sempre lembrada pela densidade psicológica de Mrs. Dalloway ou pelo experimentalismo de Orlando. No imaginário comum, sua figura está atada à melancolia e a uma escrita que coloca o drama no centro da experiência humana. No entanto, o lançamento de ‘Freshwater’ pela Degustadora Editora (selo Inglesa) revela uma autora solar, dotada de um humor ácido e um senso de deboche que poucos leitores brasileiros conheciam até agora.
Com tradução de Nara Vidal, a obra é um resgate histórico essencial para entender que a genialidade de Woolf também sabia rir de si mesma e de seu círculo social.
Intelectuais em frangalhos
A trama se passa em Freshwater, uma vila na Ilha de Wight, e reúne um grupo de intelectuais boêmios do período modernista. A protagonista é a fotógrafa Julia Margaret Cameron (tia-avó real de Woolf), que convive com figuras históricas como o poeta Alfred Tennyson, a atriz Ellen Terry e o pintor George Watts. Entre preparativos caóticos para uma viagem à Índia e sessões de fotos intermináveis, a peça expõe o ridículo das pretensões artísticas daquela elite.
A arte de alfinetar
A qualidade da escrita de Woolf em Freshwater é marcada pela leveza. Se em seus romances ela mergulha no íntimo, aqui ela prefere a superfície brilhante da ironia. A construção de personagens é fascinante: Woolf transforma ícones vitorianos em caricaturas de si mesmos. Tennyson é retratado como um narcisista preocupado com a própria fama, enquanto Julia Cameron é uma artista obcecada que não hesita em “matar um peru” para conseguir um par de asas para uma foto.
O estilo e ritmo seguem a tradição da farsa. Os diálogos são rápidos e cheios de mal-entendidos que causam riso, mostrando a destreza da autora em trabalhar temas sérios — como as questões de gênero e a rigidez moral, sob uma ótica cômica. Woolf critica o conservadorismo da Era Vitoriana com a autoridade de quem viveu suas sobras e decidiu que a melhor resposta seria a gargalhada.
A estrutura narrativa, dividida em três atos, permite ver a evolução do texto. A edição brasileira é particularmente valiosa por incluir versões de 1923 e 1935, oferecendo um vislumbre raro do processo criativo de Woolf e de como ela refinou seu sarcasmo ao longo de uma década.
• Pontos Fortes: Oferece uma perspectiva inédita e divertida de uma autora tida como “difícil”; a tradução de Nara Vidal preserva o vigor do texto original; a edição permite comparar as diferentes fases da escrita da peça.
• Pontos Fracos: Por ser uma obra baseada em personagens reais do círculo de Woolf, leitores que não possuem familiaridade com o contexto histórico britânico podem perder algumas referências e “piadas internas” da época.
Para quem é este livro?
Freshwater é uma leitura imperdível para fãs de Virginia Woolf que desejam completar o quebra-cabeça de sua carreira. É também ideal para entusiastas do teatro e da cultura pop que apreciam uma boa sátira social. Woolf prova que, por trás da intelectual séria, havia uma mulher que percebia o quanto o mundo ao seu redor era, muitas vezes, apenas uma grande e antiquada encenação.
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