Análises

AKIRA: 38 anos de uma animação que deixou um rastro neon por onde passou 

Quase quatro décadas depois, a obra de Katsuhiro Otomo continua acelerando pelas ruínas do futuro, misturando cyberpunk, juventude, tecnologia e caos em uma explosão visual que ainda influencia a cultura pop. 

Neons traçantes atrás de motos vorazes, em uma cidade com prédios que rasgam o céu. Abaixo dessa estética futurista, esconde-se a pobreza em um mundo de alta tecnologia. Este é o mundo do clássico AKIRA. Mas onde será que tudo começou? A obra de Katsuhiro Otomo começou a ser publicada em 1982, na revista Young Magazine, da Kodansha. Sua trama reúne ficção científica, poderes psíquicos e indivíduos lutando contra forças muito maiores do que eles. Seus tropos já estavam sendo desenvolvidos em trabalhos anteriores do autor, como Fire-ball, de 1979, e Domu, lançado em 1980, mas, em AKIRA, esses elementos ganham uma proporção gigantesca. 

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Muito se fala, nos estudos sobre quadrinhos, sobre a chamada “invasão britânica”, quando uma série de artistas e roteiristas vindos do Reino Unido influenciou a 9ª arte, como Alan Moore, Garth Ennis, Warren Ellis, entre outros. Só que, décadas antes, outra invasão já havia transformado a forma como as narrativas eram contadas e desenhadas: a “invasão franco-belga”, na qual artistas como Moebius, Philippe Druillet e Jacques Tardi moldaram toda uma geração de aficionados por quadrinhos. Entre esses apaixonados estava Katsuhiro Otomo, que, ao mesclar essas influências com sua paixão pelos tokusatsu de Shotaro Ishinomori, criou algumas das bases para a formação de seu estilo. AKIRA cresceu até ultrapassar 2 mil páginas, e o mais curioso é que, quando o filme chegou aos cinemas, em 1988, o mangá ainda não havia terminado. 

Transformar aquele universo em um longa-metragem, ainda mais estando incompleto, seria um desafio tão difícil quanto o de Kaneda. Otomo assumiu a direção e, ao lado de uma equipe diversa, levou a animação japonesa a padrões pouco vistos na época. O longa recebeu um orçamento de 700 a 800 milhões de ienes (cerca de 5,5 milhões de dólares na época), enquanto aproximadamente 160 mil imagens foram produzidas para suas 2.212 tomadas. Os desenhos eram feitos em papel, passavam pelas etapas de key animation e in-between, eram transferidos para acetatos, pintados e posteriormente fotografados com câmeras de 35 milímetros. Neo-Tóquio foi construída à mão, moldada por arquitetos e engenheiros da arte. 

Otomo carrega em seus trabalhos um esmero perfeccionista quase obsessivo, e no longa não seria diferente. AKIRA utilizou 327 cores, aproximadamente 50 delas desenvolvidas especialmente para a produção, algo que ia do vermelho-cornalina ao bordô, dando um aspecto fantástico para a produção, algo importante porque boa parte da história se passa durante o caos noturno. As dublagens também foram gravadas antes da animação, permitindo que os movimentos labiais fossem construídos a partir da atuação dos dubladores, algo pouco comum no anime japonês daquela década. A computação gráfica existia, porém foi utilizada de maneira pontual, auxiliando em determinados efeitos e cálculos, enquanto a maior parte do filme continuava sendo construída de forma tradicional. A trilha de Geinoh Yamashirogumi transmite uma sensação de desconforto constante, como se algo estivesse prestes a mudar a qualquer momento, misturando a sensação de ação sci-fi, com elementos de sintetizadores e rock psicodélico. 

Cena icônica do filme Akira, revelando a estética cyberpunk e o movimento.
Acetato utilizado na produção de Akira, de 1988.Imagem/Reprodução  

Uma obra sobre juventude, poder e perda de controle, na qual toda essa tecnicidade foi utilizada para dar peso à carga dramática. Tetsuo começa como o garoto inseguro que vive à sombra de Kaneda e termina transformando o próprio corpo em uma massa amorfa. Sua mutação pode ser encarada como uma versão extrema da loucura que é a adolescência: o corpo muda, a identidade se desorganiza e a pessoa tenta descobrir quem está se tornando, em meio às falhas, aos erros e aos acertos. Esse pensamento corrobora o ensaio da pesquisadora neozelandesa Susan Napier, em seu livro Anime from Akira to Howl’s Moving Castle, de 2000, no qual ela relaciona justamente a monstruosidade de Tetsuo às ansiedades associadas à adolescência e à transformação do corpo sem controle. 

O fator sociológico é aquilo que, para além do neon gritante e das belas cenas de ação, dá sustentação para o filme. Os adolescentes vivem em uma sociedade que também perdeu o controle. O governo experimenta com crianças, os militares querem transformar poderes em armamentos e os cientistas tentam dominar forças que mal compreendem. A metrópole de Neo-Tóquio foi construída sobre as ruínas de uma catástrofe e permanece marcada por protestos, violência, desigualdade e militarização. É aí que o cyberpunk de Otomo ganha seu exoesqueleto: alta tecnologia, baixa qualidade de vida.

Cena icônica do filme Akira, revelando a estética cyberpunk e o movimento.
Equipe de produção do filme Akira, de 1988.Imagem/Reprodução

O resultado foi uma das animações e produções de ficção científica mais cultuadas até os dias atuais. Mesmo mais de 40 anos após sua produção, a película continua sendo copiada e referenciada à exaustão. O filme ajudou a quebrar a ideia de que a animação era apenas entretenimento infantil e se tornou um dos grandes catalisadores do boom do anime no Ocidente, além de consolidar uma nova percepção sobre o potencial artístico e narrativo da animação. Sua Neo-Tóquio, com motocicletas, megacidades, violência, tecnologia e paranoia estatal, também alimentou o imaginário do cyberpunk e dialogou com criações que viriam depois, de Ghost in the Shell a The Matrix.

O lendário Akira Slide, movimento no qual Kaneda desliza com sua moto vermelha, tornou-se um simulacro de repetição pela cultura pop afora, aparecendo em obras que vão de Hora de Aventura, Star Wars: The Clone Wars e Pokémon a Não! Não Olhe!, Sonic e Batman Absolute, além de centenas de outras mídias que seria impossível listar aqui. Essa recorrência demonstra a força imagética de AKIRA, que ajudou a mudar a cultura pop mundial a partir de 1988. A influência também chegou à música: o videoclipe de “Stronger”, de Kanye West, utiliza referências visuais explícitas ao filme. 

Cena icônica do filme Akira, revelando a estética cyberpunk e o movimento.
Colagem com diversas referências sobre o Akira Slide. Imagem/Reprodução

AKIRA continua atual quase quatro décadas depois. Otomo desenhou nossos medos sobre o futuro: uma juventude que não se sente ouvida, uma ciência sem limites, uma cidade gigantesca escondendo suas próprias feridas e esmagando todos com seu peso, e um garoto descobrindo que possuir poder não significa saber o que fazer com ele. Uma obra que continua se espalhando como uma explosão, carregando tudo e todos pelo caminho.

Sou estudante de Jornalismo pela Universidade Federal do Tocantins (UFT). Desde a infância, quadrinhos, literatura e cinema me encantam, e desejo usar minha formação para falar daquilo que amo. Venho de uma pequena cidade no interior do estado, e essas narrativas me ajudaram a ir para lugares imagéticos, permitindo sair da minha realidade. Sou dono do perfil no Instagram Ermitonauta, focado em quadrinhos, literatura e cinema. Dê uma olhada no meu conteúdo.