Reações divididas: Enquanto produtores e analistas destacam debate sobre privilégio racial, leitores clássicos criticam alterações na trajetória do herói da DC.
A exibição do terceiro episódio da série Lanternas, intitulado “OutKast”, provocou um intenso debate nas redes sociais e na imprensa ao abordar o racismo estrutural e o privilégio branco na dinâmica dos Lanternas Verdes. A produção da HBO e da DC Studios reacendeu discussões entre críticos, fãs e membros da equipe criativa sobre o conceito tradicional de “destemor” da franquia.
O teste do anel e o privilégio estrutural
Na trama da série, é revelado que John Stewart Sr. (pai de John Stewart) foi convidado pelos Guardiões do Universo para receber o anel de poder antes de Hal Jordan. No entanto, ele falhou no teste por carregar o peso sistêmico e as tensões de ser um homem negro nos Estados Unidos, enquanto Hal Jordan contou com a vantagem de não enfrentar o fardo racial ao longo da vida.
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Durante o episódio, Bernadette, mãe de John Stewart, questiona uma Guardiã do Universo sobre a falta de consideração dos alienígenas em relação às desigualdades sociais da Terra, afirmando ser injusto exigir ausência de medo de um homem negro que vive sob constante ameaça de perseguição. Análises sobre a cena destacam que a narrativa não acusa Hal Jordan de ter cometido um crime direto de racismo, mas aponta que o personagem beneficia-se de um sistema de privilégio estrutural, já que cresceu sem o medo constante de sofrer violência ou prisões injustas por questões raciais.
Declarações polêmicas e divergências na equipe
A discussão ganhou novos desdobramentos após declarações de Frankey Smith, roteirista e apresentadora do podcast oficial da DC Studios. Smith sustentou que Hal Jordan carrega atitudes preconceituosas desde a sua origem, argumentando que sua criação ligada ao conservadorismo tradicional e às raízes familiares se reflete em vieses e microagressões racistas em sua conduta.

Por outro lado, a roteirista e co-produtora executiva da série, Vanessa Baden Kelly, defendeu que abordar questões raciais respeita o histórico do próprio personagem John Stewart nos quadrinhos desde os anos 1970. Já o ator J. Alphonse Nicholson, que interpreta John Stewart Sr., ressaltou a gratidão por atuar em um roteiro que questiona quem possui o privilégio de transitar pela vida sem ter que se preocupar com barreiras raciais.

Recepção do público e da crítica
A abordagem gerou opiniões fortemente divididas entre os espectadores. Parte do público, além de críticos e cineastas como Steven DeKnight, elogiou a coragem da série em aprofundar a experiência negra e discutir o privilégio em uma grande produção de super-heróis.
Em contrapartida, leitores clássicos e críticos como Christian Toto acusaram a produção de forçar pautas sociais (“woke”), argumentando que a inserção de debates raciais nos diálogos soa inautêntica e diminui o mérito histórico do herói. Apesar das controvérsias e das críticas sobre as alterações no cânone, a série vem registrando altos índices de audiência.
Em análise publicada nas redes sociais, o Prof_Djoser (@djoser_sankofa) pontuou que a fala da mãe de John Stewart não acusa Hal Jordan de ter cometido um crime direto de racismo, mas explicita a sua inserção em um sistema de racismo estrutural.
De acordo com o influenciador, a falha principal esteve na avaliação feita pelos Guardiões alienígenas, que aplicaram o teste de “destemor” assumindo que todos os habitantes da Terra possuem as mesmas condições e oportunidades sociais. Enquanto pessoas negras enfrentam a pressão cotidiana do medo racial, que envolve constantes ameaças de violência e prisões injustas, Hal Jordan teve o privilégio de crescer em uma estrutura que não o tormenta por questões raciais.
Para o criador de conteúdo, a série foi “corretíssima na questão racial” e “acertou em cheio” ao demonstrar que a seleção do anel precisaria levar em consideração as desigualdades da sociedade humana para ser justa.
