Cinema

O que é Horror Queer? Da literatura do século XIX ao cinema contemporâneo 

Como o horror reinterpretou criaturas e filmes para revelar questões de gênero, sexualidade e exclusão ao longo da história. 

O horror como gênero criou, durante séculos, o medo pelo diferente: vampiros, fantasmas, criaturas das trevas e seres cuja morfologia escapa às leis da natureza. Mas e se esses monstros simbolizassem muito mais? Poderiam ser a conjectura do medo real de pessoas que foram segregadas ou, até mesmo, os temores de uma sociedade diante de tudo aquilo que desafia suas normas? 

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A pesquisadora estadunidense Laura Westengard diz que o horror é um espaço de tensão constante, podendo tanto reforçar a exclusão e os estereótipos quanto oferecer novas formas de abordar desejos e identidades fora da normatividade. O Horror Queer veio, inicialmente, como um campo de estudos que verifica como o terror transformou identidades dissidentes em figuras monstruosas e, ao mesmo tempo, como essas mesmas figuras foram ressignificadas por artistas, escritores e espectadores LGBTQIAPN+, como símbolos de resistência e espelhamento. 

Pode-se dizer que essa percepção remete à construção da soturnidade literária do século XIX, em que o horror gótico mesclava elementos do romantismo, abordando narrativas nas quais a culpa, a violência, a obsessão e a sexualidade coexistem em um ambiente repressor. Obras como Frankenstein, de Mary Shelley, lançado em 1818; Carmilla, escrito por Sheridan Le Fanu e publicado em 1872; e O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, de 1886, já apresentavam personagens que habitavam zonas de ambiguidade corporal e sexual. 

Embora esses autores não tenham escrito sob a perspectiva queer, conceito que sequer existia no período em que se consolidava a sociedade moderna, esses romances passaram a ser reinterpretados por pesquisadores interessados em compreender como o horror explorava os medos relacionados ao desejo, à diferença e ao “Outro”. Essa releitura tornou-se influente a partir dos trabalhos de autores como George E. Haggerty, que, em seu livro Queer Gothic, de 2006, aborda as interseções entre o século XIX e a teoria queer. 

Foi nos anos 1990, quando a tecnologia se modernizava e a ressaca da Guerra Fria persistia, que essa forma ganhou musculatura nas pesquisas acadêmicas. Em 1995, Jack Halberstam publicou seu livro Skin Shows: Gothic Horror and the Technology of Monsters. Para Halberstam, o monstruoso é algo inquietante porque torna impossível separar mulher de homem, humano de animal, natural de artificial, normal de anormal. 

Já em 1997, o pesquisador norte-americano Harry M. Benshoff publicou a obra Monsters in the Closet: Homosexuality and the Horror Film. O autor mostra como o cinema de horror recorre repetidamente a monstros para representar aquilo que a sociedade entendia como um desvio de comportamento. Em sua proposta, ele demonstra como os monstros podem funcionar como metáforas para ansiedades culturais relacionadas à sexualidade, ao gênero e à diferença. 

Um dos grandes marcos desse subgênero, que influenciou muito do que viria posteriormente, é o longa The Rocky Horror Picture Show, lançado em 1975 e dirigido pelo australiano Jim Sharman. O filme narra a história de um casal que se depara com a mansão do Dr. Frank-N-Furter e lá, se vêem jogados em um musical que brinca com as questões de gênero. Um marco do cinema da década setentista, que ajudou a expandir os limites do que poderia ser feito.

Imagem retirada do filme The Rocky Horror Picture Show 1975. Imagem/Reprodução  

Artistas LGBTQIAPN+ sempre estiveram nas bases do medo cinematográfico, subvertendo convenções e criando conceitos. Entre esses artistas está o mestre James Whale. Diretor de Frankenstein (1931), A Casa Sinistra (1932) e A Noiva de Frankenstein (1935), ele, em plena Hollywood regida pelo código Hays, transformou monstros em figuras profundamente humanas. A pesquisadora estadunidense Laura Westengard observa que seus filmes abriram espaço para uma sensibilidade na qual as criaturas deixam de ser apenas uma ameaça. 

Imagem retirada do filme Frankenstein de 1931. Imagem/Reprodução  

Décadas depois, o romancista e cineasta britânico Clive Barker extrapolou o horror corporal em obras como Hellraiser (1987) e Nightbreed (1990), abordando desejo, dor, prazer e transformação. Nas últimas duas décadas, pesquisadores como Darren Elliott-Smith identificaram um novo olhar sobre o subgênero. Se, durante boa parte do século XX, essas representações apareciam codificadas em metáforas e subtextos, o chamado New Queer Horror passa a colocar personagens LGBTQIAPN+ no centro das narrativas.

Imagem retirada do filme Hellraiser de 1987. Imagem/Reprodução  

Filmes como Titane, de Julia Ducournau (2021), Knife+Heart, de Yann Gonzalez (2018), We’re All Going to the World’s Fair, de Jane Schoenbrun (2021), e Thelma, de Joachim Trier (2017), discutem esses temas de forma explícita, mostrando que o “medo” pode ser também um espaço de afirmação, e não apenas de exclusão. 

Imagem retirada do filme We’re All Going to the World’s Fair de 2022. Imagem/Reprodução  

Talvez seja justamente essa a maior contribuição do Horror Queer. Ele nos obriga a inverter a pergunta tradicional do terror. Em vez de perguntar “quem é o monstro?”, passa a questionar: “por que determinadas pessoas foram historicamente transformadas em monstros?”. 

autor
Sou estudante de Jornalismo pela Universidade Federal do Tocantins (UFT). Desde a infância, quadrinhos, literatura e cinema me encantam, e desejo usar minha formação para falar daquilo que amo. Venho de uma pequena cidade no interior do estado, e essas narrativas me ajudaram a ir para lugares imagéticos, permitindo sair da minha realidade. Sou dono do perfil no Instagram Ermitonauta, focado em quadrinhos, literatura e cinema. Dê uma olhada no meu conteúdo.