Pesquisa acompanha cinco coletivos e revela uma rede de artistas que produz HQs, organiza eventos e cria seus próprios caminhos para manter os quadrinhos vivos na Amazônia.
Série especial HQPOP — Mapa dos Quadrinhos da Amazônia #1
Existe uma cena de quadrinhos crescendo em Belém que dificilmente cabe apenas nas páginas de uma HQ.
Antes de uma publicação chegar às mãos do leitor, seus autores desenham, imprimem, divulgam, vendem, organizam feiras, ministram oficinas, alimentam redes sociais e criam conexões com outros artistas. Na ausência de uma grande estrutura editorial ao redor deles, os próprios quadrinistas ajudam a construir o espaço necessário para suas obras circularem.

É essa rede que começa a ganhar contornos mais claros na pesquisa “Criar, circular, existir: uma cartografia dos coletivos de quadrinhos na Amazônia”, desenvolvida por Ellen Aline da Silva de Sousa, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia (PPGCOM/UFPA).
Entre agosto de 2024 e 2026, a pesquisadora acompanhou Açaí Pesado, BRT, Capivara Astronauta, Kitnet e Serendi, observando feiras, oficinas, eventos e outras iniciativas culturais.
O que surge desse mapa é uma cena na qual produzir quadrinhos significa muito mais do que desenhar e escrever.
Para fazer quadrinhos, é preciso criar uma cena
Um dos primeiros resultados apontados pela pesquisa é justamente o forte caráter coletivo da produção de quadrinhos em Belém.
Os grupos não funcionam como ilhas. Artistas colaboram entre si, participam de projetos diferentes, migram entre coletivos e ajudam a formar novas iniciativas.
A movimentação não começou agora. O estudo aponta a existência de um fluxo de coletivos desde os anos 1990, continuamente renovado por novas articulações.
Em vez de uma estrutura rígida, temos algo próximo de uma rede: pessoas entram, saem, colaboram, criam projetos e estabelecem novas conexões.
E isso ajuda a explicar por que os coletivos assumiram um papel tão importante para os quadrinhos produzidos na capital paraense.
O quadrinista que precisa fazer de tudo
O trabalho não termina quando a última página é desenhada.
A pesquisa encontrou artistas atuando simultaneamente como quadrinistas, vendedores, produtores de eventos, palestrantes, oficineiros e criadores de conteúdo digital.
Essa multiplicidade revela uma característica fundamental da produção independente: para fazer uma HQ circular, muitas vezes o artista também precisa construir os caminhos que levam a obra até o público.
Uma oficina, por exemplo, pode ensinar desenho ou pintura, mas também apresenta o coletivo a pessoas que talvez nunca tenham encontrado seus trabalhos.
As redes sociais ampliam essa conexão. As feiras colocam artistas e leitores frente a frente. Os eventos ajudam a criar novos públicos.
Aos poucos, essas atividades deixam de funcionar separadamente e passam a alimentar umas às outras.
Uma oficina também pode mudar uma carreira
Um dos exemplos mais interessantes registrados pela pesquisa aconteceu durante uma oficina de pintura em aquarela realizada pelo coletivo Kitnet, no Centur, em dezembro de 2025.
Maiara Malato explicou que atividades desse tipo também passam a integrar o portfólio profissional dos artistas.
Participar de uma oficina promovida em parceria com uma instituição reconhecida pode gerar certificado, conteúdo para redes sociais e comprovação de experiência para futuros trabalhos.
Ou seja: ensinar também produz reconhecimento.

O que poderia parecer apenas uma atividade paralela passa a integrar a estratégia de sobrevivência e profissionalização dos coletivos.
Ao mesmo tempo, quem participa da oficina conhece os artistas, suas técnicas, trabalhos e perfis nas redes sociais.
Forma-se outro elo dessa cadeia.
A disputa para ser visto
Mas existe uma tensão por trás dessa movimentação.
A pesquisa aponta que permanecer ativo é praticamente uma necessidade para quem busca reconhecimento dentro da cena independente.
Coletivos precisam participar de eventos, estabelecer contatos e manter suas produções circulando para serem lembrados quando instituições procuram artistas para oficinas, exposições, feiras ou outras atividades.
Quem desaparece desse circuito corre o risco de permanecer restrito ao próprio grupo de conhecidos.
Existe, portanto, uma disputa por espaço e legitimidade.
Não necessariamente uma guerra declarada entre artistas, mas uma competição pela atenção de público, instituições e organizações culturais.
Paradoxalmente, essa disputa também pode produzir novas articulações.
Os mesmos artistas que buscam espaço colaboram, formam outros grupos e criam novos projetos.
Uma rede que vem sendo construída há décadas
Talvez esteja aí uma das descobertas mais interessantes do trabalho.
Quando observamos apenas uma publicação ou um artista isoladamente, enxergamos uma HQ.
Quando observamos as conexões entre essas pessoas, aparece uma estrutura cultural muito maior.
Os coletivos ajudam a produzir obras, formar artistas, criar público, organizar eventos e manter os quadrinhos circulando.
Essa dinâmica vem sendo construída em Belém desde pelo menos os anos 1990, segundo as referências utilizadas pela pesquisa, e continua assumindo novas formas.
A história dos quadrinhos paraenses, portanto, não pode ser contada apenas através das obras publicadas.
É preciso olhar para quem criou os espaços onde essas obras puderam existir.

Um mapa ainda está sendo desenhado
A pesquisa de Ellen Aline não encerra essa história. Pelo contrário: oferece pistas para começarmos a enxergá-la.
Quem são os coletivos que vieram antes? Quais desapareceram? Quais deram origem a outros grupos? Quem são os artistas que atravessaram diferentes gerações? Como essas HQs chegaram aos leitores? E até onde essa rede se estende quando saímos de Belém e olhamos para toda a Amazônia?
São perguntas que o HQPOP começa a investigar a partir desta reportagem.
A série especial Mapa dos Quadrinhos da Amazônia vai percorrer artistas, coletivos, publicações, editoras, feiras e movimentos que ajudaram e ainda ajudam a construir os quadrinhos na Região Norte.
Porque existe uma história dos quadrinhos brasileiros sendo desenhada longe dos grandes centros editoriais.
E uma parte importante dela começa aqui.
No próximo capítulo: Dos anos 1990 à nova geração: quem construiu a cena de coletivos de quadrinhos em Belém?
