Pular para o conteúdo
HQPOP
Notícias

Dia da Matinta Perera e Cortejo Visagento: O encontro entre o imaginário amazônico e a luta pelo rio Tucunduba

Criado em Belém por Lei Municipal, o Dia da Matinta Perera é celebrado neste sábado (31) com a caminhada do VIII Cortejo Visagento pelo bairro do Guamá, debatendo a preservação do rio Tucunduba.

Dia da Matinta Perera e Cortejo Visagento: O encontro entre o imaginário amazônico e a luta pelo rio Tucunduba

No dia 31 de outubro, enquanto o calendário comercial celebra o Halloween, a cidade de Belém se volta para as suas próprias raízes ancestrais com a comemoração do Dia da Matinta Perera. Marcando a data oficial, o bairro do Guamá recebe a 8ª edição do Cortejo Visagento, manifestação cultural organizada pelo Espaço Cultural Nossa Biblioteca. Sob o tema “Quem tem medo do rio Tucunduba?”, o evento reúne histórias de assombração, arte e ativismo ambiental para defender a memória e o curso d’água que marca a história da comunidade.

Programação e percurso do VIII Cortejo Visagento

A concentração do VIII Cortejo Visagento tem início às 18h, no Cemitério Santa Izabel (Avenida José Bonifácio, no bairro do Guamá). De lá, os participantes seguem em caminhada performática pelas ruas do bairro até a Praça Benedito Monteiro. Durante o trajeto, o público receberá material impresso de pesquisa sobre a história territorial do Guamá e o panorama socioambiental do local.

Cortejo Visagento em Belém, celebrando a Matinta Perera e o rio Tucunduba.
O Cortejo Visagento une arte e ativismo em Belém. Foto / Sidney Oliveira / Jornal OLiberal

Na Praça Benedito Monteiro, a programação cultural se estende com uma exposição de trabalhos artísticos, feira de venda de livros e um tradicional concurso de fantasias. A preparação para o evento contou com as “Oficinas Visagentas”, realizadas no dia 28 de outubro na sede da Nossa Biblioteca, onde a comunidade aprendeu a confeccionar máscaras (com Uritã) e figurinos de assombrações a partir do reaproveitamento de materiais (com RomaRio e Lou). O projeto conta com o apoio do Programa Nacional dos Comitês de Cultura no Pará e do Ministério da Cultura.

Leia mais em HQPOP:

A defesa do rio Tucunduba

Cortejo Visagento em Belém, celebrando a Matinta Perera e o rio Tucunduba.
Rio Tucunduba em Belém. Foto/Blog do IAC

Para os moradores do Guamá e ativistas culturais de Belém, o cortejo transforma a figura das “visagens” em um instrumento de denúncia socioambiental.

O tema deste ano propõe uma inversão de perspectiva: mostrar que não é o rio Tucunduba que ameaça a cidade com alagamentos, mas sim a expansão urbana desordenada, o descarte de lixo, os esgotos e os aterramentos que ameaçam a vida do rio. O movimento questiona inclusive intervenções urbanísticas de concreto pós-COP 30, reforçando que canalizar o leito não devolve o equilíbrio ecológico e que o rio que transborda está apenas reivindicando o espaço que lhe foi retirado.

O Dia da Matinta Perera

Cortejo Visagento em Belém, celebrando a Matinta Perera e o rio Tucunduba.
Imagem/Divulgação

O Dia da Matinta Perera foi instituído oficialmente em Belém pela Lei Municipal nº 8.330, de 16 de junho de 2004, que também criou a Semana Municipal “MATINTA PERERA” para valorizar o patrimônio imaterial e o imaginário da Região Norte em contraponto às datas importadas.

A lenda descreve a Matinta como uma senhora misteriosa que, à noite, se transforma em um pássaro agourento. Ao pousar em muros ou telhados emitindo um assobio estridente, ela só interrompe o som quando o morador promete lhe entregar oferendas tradicionalmente tabaco, café, cachaça ou peixe. No dia seguinte, a figura surge em sua forma humana para cobrar a promessa, sob pena de castigar com maldições ou doenças quem descumprir o combinado. Unindo essa tradição oral ao protesto ecológico, o Cortejo Visagento usa as figuras do imaginário para “assombrar” aqueles que poluem os rios e tratam a destruição ambiental como progresso.

Celebrar o Dia da Matinta Perera através do VIII Cortejo Visagento reafirma o papel da cultura popular como força viva de resistência comunitária em Belém. Ao ocupar o Guamá com arte, literatura e consciência ambiental, o Espaço Cultural Nossa Biblioteca demonstra que o imaginário amazônico não pertence apenas ao passado, mas segue ativo para proteger a memória, os rios e a identidade do povo paraense.

Evento Presencial Livre Gratuito
Data: sáb, 31/10/2026
Horário: 18h
Organização: Espaço Cultural Nossa Biblioteca
Emerson Coe

Emerson Coe é jornalista e editor do HQPOP, portal especializado em cultura pop, quadrinhos, literatura, cinema e entretenimento. Atua na produção de reportagens, entrevistas e análises sobre o universo geek e a indústria cultural.

Leia também