Música

João Lima transforma a gravação em caminho para descobrir a própria voz

João Lima, música brasileira, cultura amazônica, arte autoral, compositores independentes, música e filosofia, EP nostalgia/tarde, na borda. Foto/Reprodução

Músico de Belém, transforma gravações em um processo de autodescoberta através da música, unindo arte e reflexão em sua trajetória.

Para João Lima, fazer música nunca foi apenas uma possibilidade entre tantas. Desde os 16 ou 17 anos, quando começou a compor, a criação autoral se tornou a atividade que mais despertava seu interesse. Natural de Belém, o músico construiu sua trajetória de maneira independente, em um processo marcado por experimentações, mudanças de cidade, formação acadêmica e, sobretudo, pela busca de uma identidade própria.

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Essa história também pode ser contada a partir das gravações. Antes mesmo de trabalhos que viriam a ganhar maior importância em sua trajetória, João já experimentava diferentes caminhos. Em 2020, lançou o EP “nostalgia/tarde”, disponibilizado nas plataformas digitais com duas músicas. As faixas, posteriormente, não entraram no álbum “na borda”, mas fazem parte de um período importante de sua construção artística.

Mais do que lançamentos isolados, essas gravações parecem funcionar como capítulos de uma mesma investigação: entender o próprio som.

Uma das experiências decisivas nessa trajetória aconteceu em São Paulo. João se mudou para a capital paulista para cursar Composição Musical na Faculdade Santa Marcelina, mas acabou abandonando a graduação e retornando a Belém.

Apesar de não ter concluído o curso, ele acredita que a principal razão daquela mudança talvez estivesse em outro encontro. Foi em São Paulo que conheceu
Yann Dardenne, do Estúdio Mameloki, com quem realizou “na borda”, trabalho que se tornou um marco em sua caminhada musical.

O encontro acabou dando outro significado à experiência na cidade. Mais do que a formação acadêmica que inicialmente o levou para São Paulo, foi a possibilidade de encontrar pessoas, processos e espaços que contribuíram para sua produção artística que permaneceu como legado daquele período.

E “na borda” não surgiu sozinho. O EP “nostalgia/tarde”, lançado em 2020, e outras gravações anteriores e posteriores integram esse processo de tentativa, erro, descoberta e amadurecimento. No próprio entendimento de João, cada registro cumpriu uma função.

“Acho que todas essas gravações foram exercícios, uma busca pela própria voz, pelo próprio som, afirmou João”.

A frase talvez seja uma das melhores chaves para compreender seu trabalho. Ele não trata os lançamentos apenas como produtos acabados, mas como etapas de uma investigação artística que continua em andamento.

O novo álbum, atualmente em processo de produção, segue esse mesmo caminho, mas em um ritmo diferente.

Desta vez, o processo tem sido mais lento porque João precisa conciliar as gravações com sua formação acadêmica. Ele é bacharel e mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Pará (UFPA), e a universidade acabou dividindo espaço com uma atividade que, em outras circunstâncias, ocuparia praticamente todo o seu tempo.

Ainda assim, a relação entre música e pensamento parece naturalmente presente em seu percurso. A formação em Filosofia não aparece como uma ruptura em relação à música, mas como parte de uma trajetória em que criação, reflexão e investigação caminham paralelamente.

João reconhece que, se pudesse, dedicaria seu tempo integralmente às gravações. O desejo revela o tamanho que a música continua ocupando em sua vida, mesmo diante de outros compromissos.

Ao contrário de muitos projetos autorais, porém, a carreira solo de João não tem necessariamente o palco como destino principal.

Levar as músicas para um show exigiria uma estrutura que ainda não existe. Seria preciso formar uma banda, encontrar músicos dispostos a ensaiar e criar uma dinâmica capaz de traduzir ao vivo o repertório construído em estúdio.

A situação se torna ainda mais complexa porque João já toca baixo na banda
Terceiro Capanga, cuja proposta artística é diferente da de seu projeto solo. Os repertórios não se encaixam facilmente, e transformar as duas experiências em uma única proposta não seria algo natural.

Há algo particularmente interessante na trajetória de João Lima, sua música parece ser construída menos pela urgência de lançar e mais pela necessidade de descobrir.

O EP de 2020, as experiências que antecederam “na borda”, a passagem por São Paulo, o encontro com Yann Dardenne, a formação em Filosofia e agora o novo álbum não aparecem como episódios desconectados. São partes de um mesmo processo de amadurecimento.

João Lima em estúdio, refletindo sobre sua jornada musical.
João Lima, músico independente de Belém.

Talvez por isso sua produção carregue uma característica essencialmente autoral: a sensação de que cada trabalho é também uma pergunta.

O que antes era experimentação começa, aos poucos, a se transformar em linguagem. E enquanto o novo álbum avança, João Lima continua fazendo aquilo que começou a fazer ainda adolescente em Belém: procurando, através da música, uma voz que seja verdadeiramente sua.

No caso dele, o caminho parece ser tão importante quanto a chegada.

Jornalista
Jornalista apaixonada por música, cultura e comunicação, une experiência institucional e olhar estratégico para transformar informação em conexão.