Do Wu-Tang Clan ao MF DOOM, o rap transforma anime e quadrinhos em narrativa, identidade e construção de lendas contemporâneas.
Desde suas origens, o hip-hop se apropriou de referências externas para criar narrativa, identidade e mitologia próprias. Nos anos 70 e 80, isso já era visível na relação com filmes de kung fu e estética asiática, como no caso do Wu-Tang Clan, que transformava duelos de espadas em rimas afiadas.
Décadas depois, essa ponte se expandiu: o anime e os quadrinhos passaram a ocupar esse espaço simbólico como uma extensão natural de uma cultura que sempre dialogou com o imaginário.

Essa aproximação não acontece apenas por elementos estéticos. Narrativas de anime como Yu Yu Hakusho e Dragon Ball Z trabalham temas centrais também no rap: superação, identidade, exclusão e transformação. O arco do personagem rejeitado que evolui e conquista seu espaço ecoa diretamente na trajetória de muitas pessoas oriundas da periferia.
Há também uma questão geracional que explica essa fusão. Muitos artistas que dominam o cenário atual cresceram consumindo anime, videogame e quadrinhos nos anos 90 e 2000. Ao entrarem no rap, não abandonam essas referências elas são incorporadas à sua estética e narrativa. Megan Thee Stallion e Denzel Curry utilizam referências otaku em suas obras, enquanto o hip-hop também influencia o anime, como visto em produções como Samurai Champloo, Devilman Crybaby e Afro Samurai.

Talvez o nome mais emblemático dessa convergência, e que nos deixou em 2020, seja MF DOOM, nascido Daniel Dumile — o “rapper favorito do seu rapper favorito”. Ele transformou suas referências em manifesto ao adotar a máscara inspirada no Doctor Doom, um dos vilões mais icônicos da Marvel Comics. Mais do que um visual, construiu um personagem completo, operando como antagonista, mito e lenda.
Estudos acadêmicos apontam que sua obra funciona como um jogo de múltiplas identidades e narrativas, no qual o rapper alterna vozes e constrói personas, aproximando o rap de uma estrutura ficcional típica dos quadrinhos. Em vez de múltiplos quadros em uma página, há múltiplas rimas em sequência.

Doctor Doom e MF DOOM. A imagem é dividida em duas partes: à esquerda, uma ilustração clássica do vilão da Marvel Comics, com sua capa verde e máscara metálica; à direita, a capa do álbum Madvillainy, com a icônica máscara do rapper, diretamente inspirada no personagem.
No rap mais amplo, essa lógica se repete. Artistas constroem personas como heróis, anti-heróis ou arquétipos, muito semelhantes aos quadrinhos. O próprio Wu-Tang Clan já operava com essa ideia ao criar mitologias internas, nomes alternativos e universos compartilhados, antecipando o que hoje se entende como “lore”. Nesse sentido, a lírica funciona como um “quadrinho sonoro”, em que cada música é um capítulo e cada verso, um quadro narrativo.
No Brasil, a relação entre rap e imaginário simbólico, que flerta com a lógica de quadrinhos, ficção e construção de personagem, aparece em diversos artistas. O rapper e produtor niLL utilizou, em suas composições, no seu primeiro trabalho, Regina, samples de Dragon Ball, compostos pelo grandioso Shunsuke Kikuchi, para trazer uma estrutura sonora ao mesmo tempo melancólica e impactante. Rodrigo Ogi usou o mago do capote, o babaca mais amado da Vertigo, John Constantine, na faixa InSOMnia 2, para falar sobre sua rima. BK usa o Megazord dos Power Rangers como soma de um coletivo que pode alcançar objetivos juntos.

No fim, a relação entre rap e a dita cultura pop é uma convergência. Ambos trabalham com elementos arquetípicos, evolução, conflito e pertencimento. Falando de quem começa à margem e tenta reescrever o próprio destino. O que antes parecia improvável hoje se revela inevitável.