Belém de Dalcídio Jurandir ganha vida nos quadrinhos
Coletivo BRT transforma a literatura do escritor paraense em uma cartografia visual da cidade amazônica.
Nos últimos anos, a produção de quadrinhos do Pará deixou de ser tratada pelos circuitos centrais como uma curiosidade periférica para se firmar como um dos eixos mais inventivos e vigorosos da narrativa gráfica brasileira. Essa relevância estética e temática tem transbordado para outras linguagens artísticas: Como a adaptação de Brega Story, de Gidalti Jr., em formato de mininovela e dramaturgia para a TV Globo, bem como a transposição cênica para o teatro da delicada memória gráfica de Saburo, obra de Ricardo Ono sobre a imigração japonesa na Amazônia. Essas transmutações atestam não apenas o fôlego comercial das tramas paraenses, mas sua densidade dramatúrgica e humana.
Contudo, se as páginas de Gidalti e Ono abriram trilhas para a televisão e os palcos, o recente movimento do Coletivo BRT opera o caminho inverso e igualmente indispensável: resgatar um dos maiores monumentos da prosa moderna brasileira e devolvê-lo à imaginação contemporânea através das ferramentas da arte sequencial. Com o lançamento de Belém do Grão-Pará em Quadrinhos, o grupo realiza a primeira adaptação gráfica do romance seminal de Dalcídio Jurandir, transformando a complexa poética do ciclo amazônico em uma narrativa visual de distribuição pública e gratuita.
A cidade como organismo e personagem
Publicado originalmente em 1960 pela Livraria Martins Editora, Belém do Grão-Pará é o quarto título do monumental Ciclo do Extremo-Norte. Nascido em Ponta de Pedras, na Ilha do Marajó, e forjado entre a militância comunista, o cárcere político e o jornalismo cultural, Dalcídio Jurandir construiu uma literatura que recusa terminantemente o exotismo de vitrine verde. Sua Amazônia é feita de carne, lama, conflito de classes e desterro existencial.
No romance, acompanhamos o jovem Alfredo alter ego que atravessa várias obras do autor, que deixa a vila marajoara de Cachoeira do Arari e desembarca na capital paraense na década de 1920. A cidade que o recebe ainda amarga as cinzas e o declínio econômico do faustoso ciclo da borracha.
A literatura dalcidiana estabelece uma dinâmica singular em que o espaço urbano não atua como mero cenário passivo, mas como uma cidade-personagem. A Belém de Dalcídio é uma entidade viva, opressiva e fascinante, que dialoga, molda e dilacera as personagens que transitam entre suas calçadas coloniais, o porto e as periferias esquecidas.
A gramática do quadrinho: traduzindo a prosa sensorial
Adaptar uma narrativa cuja força reside tanto no fluxo lírico quanto na aspereza social impõe um desafio de linguagem rigoroso aos quadrinhos. O Coletivo BRT coletivo belenense cujo próprio nome evoca o trânsito que vem das áreas suburbanas do norte optou por uma divisão de trabalho que preserva a identidade coletiva da HQ:
- Roteiro: Felipe Garcia
- Design de Personagem e Layouts: Adriano Divino
- Ilustrações: Diogo Ferreira
- Arte-Final: Liriel Matos, Diogo Ferreira, Felipe Garcia e Rebeca Cirilo
- Letreiramento: Valéria Aranha
- Diagramação e Design de Capa: Rebeca Cirilo
- Ilustração de Capa: Liriel Matos
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A decupagem assinada por Felipe Garcia e os layouts concebidos por Adriano Divino estruturam o olhar do leitor a partir de enquadramentos que ressaltam a transição psicológica de Alfredo. Um dos momentos cruciais da adaptação é a chegada da embarcação São Pedro às docas do lendário mercado Ver-o-Peso. Em vez de recorrer à grandiosidade ornamental dos cartões-postais, os lápis de Diogo Ferreira e as tintas da equipe de arte-final valorizam a textura do porto, o trabalho braçal dos estivadores e o choque visual de um menino marajoara confrontado pela vastidão da metrópole em ruínas.
A narrativa visual não tenta duplicar a sintaxe de Dalcídio, mas encontrar equivalentes gráficos para seu ritmo: planos abertos pontuam a solidão urbana, enquanto closes e cortes fechados reconstroem a angústia da subsistência diária nos bairros suburbanos da capital.
Fomento Público e a Escolha da Circulação Livre
Em um mercado editorial frequentemente capturado por edições de luxo inacessíveis à maior parte da população, a trajetória de circulação de Belém do Grão-Pará em Quadrinhos carrega um posicionamento político explícito. Realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB – Pará / Edital de Chamamento Público nº 002/2025) e respaldado institucionalmente pela Casa de Cultura Dalcídio Jurandir, o projeto adota o formato digital inteiramente gratuito.
Disponibilizada em plataformas como o site Biblioteca de Zines e distribuída em formatos digitais (PDF e CBR) pelos canais do próprio coletivo (@coletivobrt), a graphic novel assume a função social de democratizar o acesso e formar leitores para a literatura paraense. Trata-se de um gesto coerente com a biografia do próprio Dalcídio Jurandir, escritor agraciado com o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras em 1972, mas cuja circulação sempre demandou esforços constantes de preservação e difusão popular.
O Legado em Movimento
A aparição de Belém do Grão-Pará em Quadrinhos em um momento em que narrativas como Brega Story e Saburo ganham repercussão nacional em outras artes evidencia a maturidade da cena nortista de quadrinhos. Mais do que ilustrar um texto canônico, o Coletivo BRT demonstra que a história em quadrinhos é um instrumento crítico de historiografia visual capaz de resgatar memórias territoriais e traduzir as contradições urbanas da Amazônia com a urgência que o tempo presente exige.

- EDITORA: Independente
- AUTOR/EQUIPE: Coletivo BRT / Roteiro: Felipe Garcia, design de personagem / layouts: Adriano Divino, ilustrações: Diogo Ferreira, arte-final: Liriel Matos, Diogo Ferreira, Felipe Garcia e Rebeca Cirilo, letreiramento: Valéria Aranha, diagramação e design de capa: Rebeca Cirilo, ilustração de capa: Liriel Matos
- PÁGS/FORMATO: 137 págs - Digital / Gratuito
- PREÇO MÉDIO: Consulte
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