Música

Johann leva a obra de Waldemar Henrique para o universo drag em espetáculo no Teatro Experimental

Imagem/Reprodução

Cantor, intérprete, performer e drag queen, Johann propõe uma experiência que ultrapassa a ideia de um simples tributo. Pela primeira vez, segundo a proposta do espetáculo, as canções de Waldemar Henrique serão apresentadas na interpretação de uma drag queen, criando um encontro entre uma obra profundamente ligada à cultura amazônica e uma linguagem contemporânea marcada pela teatralidade, pela identidade e pela reinvenção.

O repertório revisita composições de Waldemar Henrique a partir de novos arranjos e de uma interpretação construída para o palco. A ideia não é descaracterizar as canções, mas permitir que elas sejam escutadas a partir de outra perspectiva uma leitura em que canto, corpo, maquiagem, figurino e performance passam a integrar a narrativa musical.

A escolha de Waldemar Henrique carrega um peso simbólico. Nascido em Belém em 1905, o compositor, pianista e maestro construiu uma obra fortemente atravessada pelas culturas, mitos, lendas e imaginários da Amazônia. Canções como “Foi Boto, Sinhá!”, “Uirapuru” “Cobra Grande”, “Matintaperera” e “Tamba-Tajá” ajudaram a transformar personagens e narrativas amazônicas em repertório musical reconhecido para além do Pará.

Johann em cena, representando a obra de Waldemar Henrique com expressividade e arte drag.
Arquivo da internet

Estudos sobre sua produção destacam justamente essa relação entre música, cultura popular, mitos e representações da Amazônia. Waldemar Henrique não apenas utilizou o imaginário regional como tema: sua obra ajudou a construir uma determinada representação simbólica da região e de seus personagens no cenário musical brasileiro.

É justamente nesse ponto que o espetáculo de Johann ganha uma dimensão que vai além da homenagem. Ao levar essas canções para o corpo e para a linguagem drag, a proposta reposiciona personagens, símbolos e narrativas amazônicas diante de um público contemporâneo.

A trajetória de Johann também ajuda a entender a escolha por uma interpretação que não se limita ao canto. O artista iniciou sua relação com a música ainda no coral de uma igreja e posteriormente encontrou nos bares de Belém um espaço para desenvolver sua presença artística. A aproximação com movimentos da cena drag paraense ampliou esse caminho e abriu espaço para uma atuação que combina música, maquiagem, dança e performance.

Johann em cena, representando a obra de Waldemar Henrique com expressividade e arte drag.
Foto: Jânio Brito

Em 2022, Johann foi finalista e premiado no concurso Marina Monarcha. Também participou de espetáculos como “Encanta, Vozes da Imaginação”, da Fundação Carlos Gomes, “Cazuza Inconcert” e “Pérolas Musicais” além de integrar a série documental Mashup à Brasileira, exibida pela TV Brasil em 2024.

A experiência com diferentes linguagens também aparece na trajetória com a Móbile Lunar, banda paraense formada em 2016 e que passou por uma nova fase a partir de 2024, com Johann nos vocais. O grupo trabalha com música autoral em português e reúne referências da música brasileira e do rock progressivo dos anos 1970.

Em 2025, a banda venceu a seletiva de Belém do Porão do Rock e levou sua música para Brasília, representando o Pará em um dos festivais tradicionais do circuito nacional.

Essa passagem pelo rock ajuda a explicar outra característica do espetáculo: a presença de uma banda ao vivo formada exclusivamente por mulheres musicistas paraenses. A formação musical reúne Beá, no teclado; Raissa Coutinho, na guitarra; Amanda Alencar, no violoncelo, Larissa Mê, na percussão; e Renata Beckmann, no baixo.

A escolha da formação feminina acrescenta outra camada à proposta. Ao lado da performance de Johann, os instrumentos constroem uma releitura que pretende aproximar a música de Waldemar Henrique de sonoridades e sensibilidades contemporâneas, sem abandonar a atmosfera amazônica que atravessa o repertório. O espetáculo ainda terá participações especiais de Laercio Esteves, guitarrista da Móbile Lunar, e da cantora Gigi Furtado.

No caso de Waldemar Henrique, talvez a resposta esteja justamente na capacidade de permitir que suas canções continuem sendo reinterpretadas. Sua produção já nasceu do encontro entre diferentes universos formação erudita, música popular, folclore, cultura amazônica e experiências vividas dentro e fora do Pará. Ao longo da carreira, o compositor levou esses elementos para teatros, rádios e palcos de diferentes partes do Brasil e também do exterior.

Johann em cena, representando a obra de Waldemar Henrique com expressividade e arte drag.
Foto: Daniel Silva

Quase três décadas depois de sua morte, sua obra continua sendo revisitada por artistas de diferentes gerações. E talvez seja justamente aí que esteja a força da proposta, compreender que tradição não é necessariamente aquilo que permanece intocado, mas aquilo que continua encontrando novas formas de ser contado.

No palco que leva seu nome, Waldemar Henrique será revisitado por um artista que transforma corpo, voz e performance em linguagem. Uma Amazônia construída musicalmente no século XX encontra uma cena artística do século XXI não para disputar espaço, mas para conversar.

Serviço:
Johann, voz, interpretação e performance
Beá, teclado
Raissa Coutinho, guitarra
Amanda Alencar, violoncelo
Larissa Mê, percussão
Renata Beckmann, baixo Participações: Laercio Esteves e Gigi Furtado

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17
SET
Ingressos
  • 📅 Data: 17 de setembro
  • 📍 Local: Teatro Experimental Waldemar Henrique Belém (PA)
  • 🕒 Horário: 20:00
  • 🎟️ Mais Informações

Jornalista
Jornalista apaixonada por música, cultura e comunicação, une experiência institucional e olhar estratégico para transformar informação em conexão.