Com foco na profissionalização e no Circuito Amazônico, evento em Palmas reafirma o potencial criativo fora do eixo tradicional de produção.
O Quadrinho Além do Eixo
Historicamente, o mercado de quadrinhos no Brasil lutou contra a gravidade de um eixo geográfico restrito. No entanto, a efervescência cultural recente tem demonstrado que a “periferia” do ponto de vista do mercado editorial tradicional é, na verdade, um centro pulsante de narrativas originais “Pois o que era velho no norte
(Se torna novo no sul)” já cantou Fred Zero Quatro na letra “Destruindo a Camada de Ozônio” do Mundo Livre S/A. A abertura da Feira Teiú de Quadrinhos Brasileiros em Palmas, nesta sexta-feira, 24 de abril, é um sintoma de maturação do ecossistema de HQs no país.
Sediada no campus Palmas do Instituto Federal do Tocantins (IFTO), a feira estende sua programação até o sábado, 25 de abril. O evento atua como uma peça-chave do Circuito Amazônico de Quadrinhos, integrando oficinas, palestras, mostras audiovisuais e o tradicional Beco dos Artistas, que este ano conta com mais de 20 mesas dedicadas à produção autoral.
Para além da comercialização, o evento foca na formação: são seis oficinas com capacidade para 120 participantes e mesas-redondas preparadas para receber centenas de interessados no auditório da instituição.
A presença de figuras como o editor Sidney Gusman (SP) e Márcio Jr. (GO) eleva o tom do evento de uma celebração de fãs para uma plataforma de negócios e aperfeiçoamento. O organizador, Pablo Marquinho, destaca que esta edição supera a anterior em escala e ambição, especialmente com a introdução de mentorias exclusivas para artistas selecionados por chamada pública.
O diálogo entre talentos nacionais estabelecidos, como João Pinheiro e Sâmela Hidalgo, e nomes locais como Geuvar Oliveira e Álvaro Maia, cria uma ponte necessária para que a produção do Tocantins e da região Norte encontre caminhos de distribuição nacional.
A importância da Feira Teiú reside na sua capacidade de institucionalizar o apoio ao artista independente. Ao oferecer oficinas que vão desde a “Introdução à Aquarela” até a “Gestão Editorial e Comunicação”, o evento ataca uma das maiores carências do setor: o entendimento do quadrinho como profissão e indústria criativa.
Há também um forte componente de base. O concurso de quadrinhos voltado a estudantes da rede pública, com o tema provocativo “Isenção de Impostos”, utiliza as HQs como ferramenta de cidadania e reflexão crítica desde cedo, premiando a originalidade e a pertinência temática.
O sucesso desta edição pode consolidar Palmas como um polo fixo para surgimento de talentos. Se as mentorias cumprirem seu papel de refinar projetos locais para o mercado nacional, veremos em breve um aumento da presença nortista nos grandes catálogos e premiações. O desdobramento esperado é que o Circuito Amazônico de Quadrinhos se torne uma rede de sustentação para artistas que, até pouco tempo, viam o sucesso editorial como algo restrito ao Sudeste.
Até que ponto o mercado editorial brasileiro está realmente preparado para absorver e distribuir a densidade de narrativas que florescem fora do eixo Rio-São Paulo, ou continuaremos a tratar esses polos como eternas “promessas” regionais?