Por que os filmes de super-heróis não fazem mais o mesmo sucesso de antigamente?

Após dominar as bilheterias durante mais de uma década, Marvel e DC enfrentam um novo cenário em Hollywood, marcado pela queda de interesse do público, pelo desgaste das franquias e pela dependência crescente da nostalgia.
Os filmes de super-heróis sempre tiveram um espaço importante na história do cinema, mas foi a partir dos anos 2000 que o gênero começou a conquistar uma dimensão comercial ainda maior. Produções como Blade, X-Men e Homem-Aranha ajudaram a estabelecer uma nova fase para as adaptações de quadrinhos, que posteriormente alcançariam seu auge com a criação do Universo Cinematográfico da Marvel (MCU), em 2008.
Décadas antes, outras produções já haviam demonstrado o potencial desse mercado. O clássico Superman, estrelado por Christopher Reeve e lançado em 1978, foi um dos principais responsáveis por popularizar os filmes de super-heróis em escala mundial. Entretanto, depois de tantos anos de grandes lançamentos e bilheterias bilionárias, o cenário começou a mudar.
Mas o que aconteceu com o gênero? Por que filmes que antes eram considerados grandes eventos cinematográficos agora encontram dificuldades para alcançar os mesmos resultados?
Leia mais em HQPOP:
- Clayface estreia com 77% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes
- Steven Soderbergh se junta a Matt Reeves para concluir as filmagens de The Batman: Parte II
- Paramount e Warner Bros. Discovery formam Skydance após meses de disputa pela aquisição
O início do MCU
Durante a década de 1990, a Marvel enfrentou uma grave crise financeira e chegou a declarar falência em 1996. Para continuar existindo e conseguir recursos, a empresa vendeu os direitos cinematográficos de diferentes personagens para outros estúdios. Entre eles estava o Homem-Aranha, cujos direitos foram adquiridos pela Sony Pictures.
Entretanto, em 2008, a Marvel decidiu apostar em um caminho diferente. Com o lançamento de Homem de Ferro, estrelado por Robert Downey Jr., a empresa iniciou seu próprio universo compartilhado, apresentando personagens que futuramente se encontrariam em grandes produções.
Com orçamento estimado em US$ 140 milhões, o primeiro filme do herói arrecadou aproximadamente US$ 585,8 milhões mundialmente. O resultado foi considerado um importante sucesso comercial e abriu caminho para a expansão do MCU.
A estratégia da Marvel consistia em apresentar diferentes personagens em filmes individuais e, posteriormente, reuni-los em produções maiores. A ideia transformaria a maneira como Hollywood trabalhava com franquias cinematográficas.
O início do DCEU
Inspirada pelo crescimento da concorrente, a DC também decidiu construir seu próprio universo compartilhado nos cinemas.
Em 2013, a Warner Bros. lançou O Homem de Aço, estrelado por Henry Cavill, dando início ao Universo Estendido da DC (DCEU). A produção apresentou uma nova interpretação do Superman, apostando em uma abordagem mais realista e sombria para o personagem.
O filme arrecadou aproximadamente US$ 670 milhões mundialmente, alcançando um resultado comercial expressivo. Entretanto, a recepção da crítica especializada foi mais dividida, assim como a opinião dos fãs.
Parte do público aprovou a proposta de apresentar um Superman mais sério e distante da abordagem tradicional dos quadrinhos, enquanto outros consideraram que o tom escolhido não combinava com a essência do personagem.
Mesmo diante das divisões, a Warner Bros. continuou investindo na expansão do universo, preparando o encontro entre alguns dos maiores heróis da editora.
Os primeiros resultados comerciais
Durante os primeiros anos do MCU e do DCEU, Marvel e DC tiveram resultados variados. Algumas produções conquistaram grandes bilheterias, enquanto outras receberam críticas negativas ou apresentaram desempenho comercial abaixo das expectativas.
Na Marvel, filmes como O Incrível Hulk, Homem de Ferro 2 e Thor tiveram recepções diferentes, mas ajudaram a construir a primeira fase do universo compartilhado.
Já a DC conseguiu resultados comerciais expressivos com produções como Batman vs Superman: A Origem da Justiça e Esquadrão Suicida. Apesar disso, os dois filmes enfrentaram críticas bastante negativas de parte da imprensa especializada e dividiram a opinião dos espectadores.
Batman vs Superman, por exemplo, chegou a receber o Framboesa de Ouro de Pior Filme, mesmo tendo arrecadado aproximadamente US$ 874 milhões mundialmente.
O cenário demonstrava que o sucesso comercial e a aprovação da crítica nem sempre caminhavam juntos. Ainda assim, o gênero continuava atraindo grandes públicos, principalmente pela novidade de acompanhar diferentes personagens e histórias conectadas.
O grande estouro dos Vingadores
Em 2012, a Marvel lançou seu primeiro grande evento cinematográfico: Os Vingadores.
O filme reuniu personagens apresentados anteriormente em produções individuais e colocou a equipe diante de uma ameaça que exigia a união dos heróis.
Com orçamento estimado em US$ 225 milhões, a produção arrecadou aproximadamente US$ 1,52 bilhão mundialmente, tornando-se o primeiro filme do MCU a ultrapassar a marca de US$ 1 bilhão.
O resultado consolidou a estratégia da Marvel e demonstrou o potencial comercial dos universos compartilhados. A partir daquele momento, o estúdio passou a construir uma sequência de lançamentos que culminaria em eventos cada vez maiores.
Enquanto isso, a DC também continuava investindo em seu universo, mesmo enfrentando dificuldades para conquistar uma recepção crítica tão consistente quanto a da concorrente.
O último grande evento antes das mudanças
Em 2019, a Marvel chegou ao auge de sua primeira grande saga com Vingadores: Ultimato.
O filme representou a conclusão de mais de uma década de histórias e reuniu personagens que haviam conquistado milhões de espectadores ao redor do mundo.
A produção arrecadou aproximadamente US$ 2,8 bilhões em seu lançamento original, tornando-se um dos maiores fenômenos comerciais da história do cinema. Seu impacto foi tão expressivo que, durante determinado período, chegou a ocupar o posto de maior bilheteria mundial de todos os tempos.
Ultimato representou o encerramento de um ciclo e deixou uma pergunta importante para a Marvel: como continuar atraindo o mesmo público depois de um evento tão grandioso?
As primeiras mudanças
Após o sucesso de 2019, a Marvel iniciou uma nova etapa do MCU, expandindo seu universo por meio de filmes e séries para o Disney+.
Entretanto, a recepção começou a apresentar sinais de desgaste. Um dos exemplos foi Eternos, lançado em 2021, que dividiu a opinião dos espectadores. Enquanto parte do público elogiou a proposta visual e a tentativa de apresentar novos personagens, outros criticaram o ritmo e o desenvolvimento da história.
O longa arrecadou aproximadamente US$ 402 milhões mundialmente, um resultado abaixo das expectativas para uma produção desse porte.
Na DC, o cenário também apresentava mudanças. Aquaman, lançado em 2018, havia conquistado um enorme sucesso comercial, ultrapassando US$ 1,1 bilhão mundialmente. Entretanto, os lançamentos seguintes enfrentariam dificuldades para repetir o mesmo desempenho.
O impacto da pandemia no cinema
Em 2020, a pandemia de Covid-19 provocou uma das maiores crises da história da indústria cinematográfica. Com o avanço da doença, cinemas de diferentes países fecharam suas portas, produções foram interrompidas e diversos lançamentos precisaram ser adiados.
Mesmo após a reabertura das salas, o mercado enfrentou dificuldades para recuperar o público. Restrições sanitárias, redução de sessões e mudanças nos hábitos de consumo afetaram diretamente a arrecadação dos filmes.
Marvel e DC também sentiram os efeitos desse período. Produções como Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis e O Esquadrão Suicida chegaram aos cinemas em um momento de recuperação ainda incerta.
Embora tenham recebido elogios de parte da crítica e do público, os filmes não alcançaram resultados comerciais proporcionais às expectativas e aos investimentos realizados.
A pandemia também acelerou a expansão dos serviços de streaming, fazendo com que parte dos espectadores passasse a esperar pelos lançamentos em casa, em vez de comparecer imediatamente aos cinemas.
O início da dependência do fanservice
Em dezembro de 2021, a Marvel lançou Homem-Aranha: Sem Volta para Casa, uma produção que se tornaria um dos maiores sucessos comerciais da história do gênero.
O filme apresentou o multiverso e trouxe de volta personagens de outras franquias do Homem-Aranha, incluindo versões interpretadas por Tobey Maguire e Andrew Garfield.
A participação dos antigos protagonistas e o retorno de vilões conhecidos transformaram a produção em um grande evento para os fãs. Mesmo em um período de recuperação dos cinemas após a pandemia, o longa arrecadou aproximadamente US$ 1,92 bilhão mundialmente.
O sucesso também ajudou a popularizar ainda mais o conceito de fanservice, que consiste em utilizar referências, personagens e elementos conhecidos pelo público para despertar nostalgia e criar momentos de identificação.
A estratégia não era necessariamente nova, mas passou a ganhar ainda mais espaço nas grandes produções. O resultado de Sem Volta para Casa mostrou que a nostalgia poderia funcionar como um poderoso atrativo comercial.
O grande declínio
Depois de Homem-Aranha: Sem Volta para Casa, a Marvel enfrentou uma sequência de resultados comerciais irregulares. A chamada Saga do Multiverso apresentou novos personagens, ampliou a quantidade de produções e tentou estabelecer diferentes caminhos para o futuro do MCU.
Entretanto, parte do público começou a demonstrar cansaço com a quantidade de lançamentos e com a necessidade de acompanhar filmes e séries para compreender completamente os acontecimentos do universo compartilhado.
Produções como Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania, As Marvels e Capitão América: Admirável Mundo Novo enfrentaram dificuldades nas bilheterias.
A DC também atravessou um período complicado. Depois de anos de mudanças criativas, projetos com recepção dividida e dificuldades para estabelecer uma continuidade, o DCEU chegou ao fim sem conseguir recuperar a força comercial de seus primeiros grandes lançamentos.
Em 2022, Adão Negro, estrelado por Dwayne Johnson, chegou aos cinemas cercado de expectativas e com a promessa de representar uma nova etapa para a franquia. Entretanto, arrecadou aproximadamente US$ 393 milhões mundialmente, resultado considerado insuficiente diante de seu orçamento e dos custos de divulgação.
O filme acabou se tornando um dos símbolos das dificuldades enfrentadas pela DC naquele período, pouco antes da reformulação que daria origem ao novo Universo DC.
O sucesso da nostalgia
Apesar das dificuldades, a Marvel demonstrou que ainda conseguia atrair grandes públicos quando apostava em personagens conhecidos e no retorno de figuras importantes de suas antigas produções.
Um dos maiores exemplos foi Deadpool & Wolverine, lançado em 2024. O longa reuniu dois personagens populares e aproveitou a presença de Hugh Jackman como Wolverine para criar um grande evento cinematográfico.
A produção ultrapassou US$ 1,3 bilhão mundialmente, demonstrando novamente a força comercial da nostalgia e dos personagens já estabelecidos.
O retorno de elementos de outras franquias também se tornou uma ferramenta importante para a Marvel, que passou a explorar cada vez mais as possibilidades do multiverso.
Entretanto, existe uma diferença entre utilizar a nostalgia como complemento de uma boa história e depender exclusivamente dela para atrair espectadores.
O cenário atual e os desafios de Marvel e DC
Depois de 2019, nenhum novo filme de super-herói centrado em uma proposta inédita conseguiu ultrapassar US$ 1 bilhão mundialmente. Mesmo com produções bem recebidas, Marvel e DC passaram a enfrentar dificuldades para repetir os resultados de seus maiores sucessos.
Em 2025, Superman, primeira grande produção cinematográfica do novo DCU, arrecadou aproximadamente US$ 619 milhões mundialmente. O filme apresentou uma nova interpretação do Homem de Aço e recebeu uma recepção positiva, mas não alcançou a marca bilionária.
Na Marvel, Thunderbolts arrecadou aproximadamente US$ 382 milhões, apesar dos elogios recebidos por parte do público e da crítica. Já Quarteto Fantástico: Primeiros Passos chegou a aproximadamente US$ 522 milhões mundialmente, apresentando um resultado comercial superior, mas também distante dos maiores sucessos do estúdio.
Os números mostram que boas avaliações não garantem automaticamente grandes bilheterias. Ao mesmo tempo, também demonstram que produções com personagens conhecidos e propostas diferentes ainda conseguem encontrar espaço no mercado.
O que mudou no público?
O gênero de super-heróis não desapareceu e continua tendo uma base expressiva de fãs. O que mudou foi a relação do público com essas produções.
Durante os anos de expansão do MCU, acompanhar cada lançamento era uma novidade. Os espectadores queriam descobrir quais personagens apareceriam, como as histórias se conectariam e quais seriam os próximos grandes eventos.
Hoje, depois de dezenas de filmes e séries, essa fórmula já não apresenta o mesmo impacto. A quantidade de lançamentos, a repetição de estruturas narrativas e a dependência de acontecimentos anteriores podem fazer com que parte do público perca o interesse.
Outro fator importante é a concorrência. O cinema oferece uma variedade enorme de produções, e os espectadores estão cada vez mais seletivos sobre quais filmes realmente merecem uma ida às salas.
Isso não significa que o público tenha deixado de gostar de super-heróis. Significa que apenas apresentar um personagem famoso ou prometer uma conexão com outro filme já não é suficiente para garantir o sucesso.
Uma nova fase para os filmes de super-heróis
O mercado cinematográfico está passando por uma transformação, e Marvel e DC precisam demonstrar que conseguem se adaptar a esse novo cenário.
A Marvel prepara uma nova etapa do MCU após Vingadores: Guerras Secretas, enquanto a DC Studios continua desenvolvendo seu universo compartilhado sob a liderança de James Gunn e Peter Safran.
As duas empresas terão o desafio de conquistar novamente a confiança dos espectadores, apresentando histórias que funcionem por conta própria, personagens interessantes e projetos capazes de despertar curiosidade sem depender constantemente de participações especiais e referências nostálgicas.
O sucesso futuro do gênero dependerá não apenas do retorno de personagens conhecidos, mas também da capacidade de apresentar novas histórias que conquistem o público.
Depois de dominar as bilheterias durante tantos anos, os filmes de super-heróis chegam a um momento decisivo. Mais do que nunca, Marvel e DC precisam provar que ainda conseguem surpreender os espectadores e transformar seus próximos lançamentos em verdadeiros eventos cinematográficos.
Leia também
Por que Goku e Vegeta não são os seres mais fortes de Dragon Ball, segundo Akira Toriyama
Embora sejam os grandes protagonistas e heróis da franquia, o criador da obra revelou por meio de suas…
Lanternas: série gera debate sobre racismo estrutural e privilégio na origem de Hal Jordan
Reações divididas: Enquanto produtores e analistas destacam debate sobre privilégio racial, leitores clássicos criticam alterações na trajetória do…
XibéSec 2026: Belém sediará grande encontro de cibersegurança e tecnologia da Amazônia
O XibéSec chega à sua 4ª edição em Belém reunindo 400 participantes para debater inteligência artificial, ameaças digitais…