A coletânea reúne as 43 primeiras tirinhas de Gustavo Magalhães e transforma o cotidiano da infância no interior em uma narrativa sensível, bem-humorada com visual legal.
Há uma tendência recente de transformar a infância em um catálogo de referências afetivas. Em No Meio Fio, Gustavo Magalhães segue um caminho diferente: a nostalgia não é construída pela lembrança de objetos ou décadas específicas, mas pela recriação de uma experiência compartilhada. A sensação de chegar da escola, encontrar os amigos na rua, brincar de pega-pega, andar de bicicleta e trocar gibis torna-se o verdadeiro motor das tirinhas.
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Publicada pela editora Pé de Cabra, a primeira edição reúne as 43 primeiras tiras de uma série que chegaria a 274 publicações antes de Gustavo anunciar sua interrupção. Em sua newsletter Antes que eu me arrependa, distribuída gratuitamente aos leitores, o autor justificou a decisão: “Empurrar essa série por apego ou obrigação não seria justo com eles, nem com você, leitor.” A pausa revela um cuidado raro com a integridade criativa da obra e torna este primeiro volume um registro das ideias inaugurais de um universo que amadureceria ao longo da série.

As histórias acompanham Nico, seus irmãos e os vizinhos em pequenos conflitos da pré-adolescência vivida em uma cidade do interior paulista. Não existe uma grande narrativa contínua; o interesse está justamente na sucessão de episódios aparentemente banais que, reunidos, constroem uma memória afetiva coletiva. O humor oscila entre a comédia de costumes e o nonsense, permitindo que situações corriqueiras sejam constantemente desviadas para o absurdo sem romper a lógica daquele universo.
Um elemento recorrente é o misterioso pichador responsável pelas inscrições de “No Meio Fio” espalhadas pelo bairro. Sua presença interrompe ocasionalmente o fluxo cotidiano das histórias, funcionando mais como um comentário visual sobre aquele espaço do que como um conflito dramático. É uma escolha narrativa discreta, mas suficiente para evitar que a repetição das situações transforme a série em uma coleção de clichês sobre infância.

Visualmente, Gustavo Magalhães demonstra desde o início uma compreensão sólida da linguagem dos quadrinhos. Embora muitas tiras utilizem a estrutura tradicional de três quadros, a composição raramente permanece estática. O enquadramento varia conforme a necessidade da cena, os personagens ocupam o espaço com naturalidade e o tempo cômico nasce tanto da sequência dos quadros quanto da economia dos diálogos.

A paleta de cores, quando presente, aposta em tons pastéis que reforçam a atmosfera melancólica sem recorrer a filtros nostálgicos excessivos. Em outras passagens, o preto e branco evidencia o desenho limpo e a expressividade dos personagens. Entre eles, Marin se destaca justamente pelo silêncio: suas poucas ou nenhuma fala fazem com que sua presença seja construída por gestos, olhares e ritmo visual, demonstrando confiança do autor na narrativa gráfica.

A edição também merece atenção pelo projeto editorial. O formato horizontal e compacto da editora Pé de Cabra dialoga diretamente com a estrutura das tirinhas e proporciona uma leitura confortável. A impressão artesanal reforça a sensação de proximidade, como se o livro preservasse algo do caráter íntimo que a série possuía quando era distribuída diretamente aos leitores.
Existe, em No Meio Fio, uma melancolia semelhante à evocada por “1979”, do Smashing Pumpkins. Não porque ambas retratem uma mesma época, mas porque compartilham um mesmo sentimento: a percepção de que a infância nunca é extraordinária enquanto acontece; ela se torna extraordinária apenas quando passa. Gustavo Magalhães compreende essa diferença e evita romantizar o passado. Em vez disso, transforma pequenas experiências cotidianas em matéria-prima para uma obra que encontra força justamente na simplicidade de suas observações.
Mais do que uma coletânea de tirinhas humorísticas, No Meio Fio #1 registra o nascimento de uma voz autoral interessada menos em provocar gargalhadas do que em capturar um estado de espírito. É nesse sentimento e na confiança de que pequenos acontecimentos podem carregar grandes significados que reside a principal qualidade da obra.
- Editora: Pé de Cabra
- Autor/Equipe: Gustavo Magalhães
- Páginas/Formato: 44 págs - Capa Comum
- Preço Médio: R$ 35.00
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