Análises

Das profundezas da internet para o cinema: como as creepypastas se tornaram o folclore da internet 

Criadas por comunidades online, as creepypastas romperam as barreiras da internet e passaram a influenciar filmes, séries e uma nova geração de narrativas de horror 

Ficar acordado até tarde, virando noites lendo tramas estranhas e insólitas, é um hábito compartilhado por milhões de pessoas ao redor do mundo, amedrontadas, com medo de olhar para trás e visualizar um vulto, ou algo pior. O medo encontrava seu habitat em cabanas ermas, florestas amaldiçoadas e becos sujos. No século XXI, as monstruosidades passaram a habitar outro território: a internet. As creepypastas, termo derivado da junção entre creepy (assustador) e copypasta (texto colado e copiado), brotaram em fóruns como 4chan, Something Awful e Reddit como contos compartilhados por usuários que, com o tempo, foram ampliados, editados e transformados. 

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Suas estruturas se aproximam de histórias e narrativas geracionais, uma forma de folclore contemporâneo, como descrevem os pesquisadores estadunidenses Trevor J. Blank e Lynne S. McNeill no livro Slender Man Is Coming: Creepypasta and Contemporary Legends on the Internet lançado em 2018, no qual defendem que esses relatos cumprem o mesmo papel dos contos rurais e das lendas urbanas do século XX, transformando medos coletivos em histórias que são constantemente recontadas, modificadas e apropriadas por diferentes comunidades. 

A expressão creepypasta foi popularizada no final dos anos 2000, mas seus arquivos originários são bem mais antigos, escondidos em abas anônimas de navegadores.  Ainda no começo do século, já eram compartilhadas narrativas como Ted the Caver e The Dionaea House, que simulavam diários, documentos e relatos pessoais para provocar sentimentos inquietantes e a sensação de que “aquilo poderia ter acontecido”. 

Imagem representativa da creepypasta, The Dionaea House. Imagem/Reprodução

Talvez o maior ponto de crescimento e popularização desse tipo de trama tenha ocorrido em 2009, quando Eric Knudsen criou Slender Man durante um concurso de modificação de imagens no fórum Something Awful. Diferentemente de outros tipos de personagens, os protagonistas e temas das creepypastas muitas vezes não pertencem a uma única autoria. Diversos usuários expandem e transformam seus universos por meio de textos, vídeos, jogos, ARGs, fanfilms e edições. 

Imagem ilustrativa da creepypasta, Slenderman . Imagem/Reprodução   

Essa dinâmica ajuda a explicar por que tantas creepypastas parecem “reais”. Em vez de recorrer ao sobrenatural explícito, elas imitam registros documentais, como fotografias granuladas, fitas VHS, capturas de tela, arquivos corrompidos, fóruns abandonados e gravações de câmeras de segurança. O pesquisador da comunicação Henry Jenkins, em seu livro Cultura da Convergência, publicado em 2006, argumenta que o público contemporâneo não apenas consome histórias, mas também as expande e transforma. 

Cada época produz suas monstruosidades, refletindo os anseios, as ansiedades e os medos da população. No século XIX, a melancolia se mesclava com o romantismo, em meio a uma sociedade rígida e repressora, dando origem a Frankenstein e Drácula. No século XX, a desilusão científica, a descrença nas superestruturas e os embates sociais trouxeram ao mundo o horror lovecraftiano e os filmes slasher. Já no novo século, a era digital produziu inquietações ligadas à vigilância, ao anonimato, à perda da identidade e à impossibilidade de distinguir o real da manipulação tecnológica. 

Jeff the Killer, Smile Dog, BEN Drowned, The Rake, Experimento do Sono Russo e Candle Cove tornaram-se representantes desse compartilhamento digital, enquanto projetos colaborativos, como a Fundação SCP, ampliaram esse conceito. Iniciada em 2007 a partir do artigo “SCP-173”, a Fundação SCP transformou-se em um gigantesco arquivo ficcional composto por milhares de documentos escritos por pessoas ao redor do globo, incluindo uma área lusófona, voltada para falantes de português, na qual são descritas entidades e fenômenos paranormais em linguagem catalográfica e científica. Paralelamente, obras como Local 58, Gemini Home Entertainment, The Backrooms e The Mandela Catalogue ajudaram a dar origem ao chamado analog horror, subgênero que recupera a estética de fitas VHS, transmissões de televisão e vídeos institucionais para intensificar a sensação de autenticidade. 

Imagem ilustrativa da Fundação SCP. Imagem/Reprodução

Esse sucesso não passou ileso aos produtores e acionistas hollywoodianos. Depois de tentativas, como o filme Slender Man de 2018 e a série Channel Zero, os grandes estúdios passaram a enxergar as creepypastas como uma fonte de propriedades intelectuais capazes de dialogar com as novas gerações, além do fato delas já virem com uma fanbase forte e estabelecida, e terem poucos direitos autorais. Atiçando muitos figurões, na ideia de, pouco investimento e retorno seguro.  

Esse sucesso não passou despercebido por produtores e acionistas hollywoodianos. Depois de tentativas, como o filme Slender Man (2018) e a série Channel Zero, os grandes estúdios passaram a enxergar as creepypastas como uma fonte de propriedades intelectuais capazes de dialogar com as novas gerações, além do fato de já virem com uma fanbase estabelecida e, em muitos casos, terem poucos direitos autorais. Atiçando o interesse de muitos figurões da indústria, atraídos pela perspectiva de baixo investimento e retorno potencialmente seguro. 

O êxito comercial de Backrooms de Kane Parsons abriu caminho para uma nova onda de adaptações. Entre os projetos confirmados estão The Mandela Catalogue, que será dirigido por seu criador, Alex Kister, com produção de Steven Spielberg, além de V/H/S: SCP, antologia que adaptará o universo colaborativo em formato de “fitas recuperadas”. Também estão em desenvolvimento filmes inspirados em criações virais como Siren Head e Cartoon Cat. Mostrando mais uma vez que as crises do cinema mainstream abrem portas para novos criadores e temas. 

O êxito comercial de Backrooms, de Kane Parsons, abriu caminho para uma nova onda de adaptações. Entre os projetos confirmados estão The Mandela Catalogue, que será dirigido por seu criador, Alex Kister, com produção de Steven Spielberg, além de V/H/S: SCP, antologia que adaptará o universo da Fundação em formato de “fitas recuperadas”. Também estão em desenvolvimento filmes inspirados em Siren Head e Cartoon Cat, mostrando, mais uma vez, que as crises do cinema mainstream abrem portas para novos criadores e temas.

autor
Sou estudante de Jornalismo pela Universidade Federal do Tocantins (UFT). Desde a infância, quadrinhos, literatura e cinema me encantam, e desejo usar minha formação para falar daquilo que amo. Venho de uma pequena cidade no interior do estado, e essas narrativas me ajudaram a ir para lugares imagéticos, permitindo sair da minha realidade. Sou dono do perfil no Instagram Ermitonauta, focado em quadrinhos, literatura e cinema. Dê uma olhada no meu conteúdo.