Entre florestas, vilarejos isolados e cultos, o horror folclórico revela os fantasmas culturais que continuam assombrando a modernidade
O terror e o horror são costumeiramente lembrados por assassinos encapuzados, castelos góticos ou uma psicologia aterrorizante. Entretanto, existe um subgênero que está ressurgindo das matas densas e brotando de cavernas esquecidas: aquele que nasce da terra, do isolamento e das tradições antigas. O folk horror transforma florestas, vilarejos, rituais e crenças populares em manifestações do medo coletivo, funcionando como uma arqueologia cultural que escava superstições, traumas sociais e memórias enterradas que assombram a modernidade. O pensador Adam Scovell, autor do livro Folk Horror: Hours Dreadful and Things Strange, lançado em 2017, vê o gênero como um choque entre a civilização moderna e tecnológica e o passado.
Suas raízes se aprofundam nas terras do passado, surgindo até mesmo antes dos primeiros cinematógrafos, ainda na literatura gótica e nas histórias sobrenaturais britânicas de autores como M. R. James e Sheridan Le Fanu. Porém, foi no cinema dos anos 60 e 70 que o gênero começou a tomar forma. Obras como Witchfinder General, dirigido por Michael Reeves em 1968, O Estigma de Satanás, de Piers Haggard, lançado em 1971, e principalmente O Homem de Palha, dirigido por Robin Hardy em 1973, estabeleceram a chamada “trindade do horror folclórico”. Nesses filmes, o campo deixa de ser bucólico e passa a revelar fanatismo religioso, violência ritualística e comunidades isoladas vivendo sob moralidades próprias.

Fora do Ocidente, o folk horror ganha traços mais espirituais, muito advindos dessas culturas que mantiveram uma relação mais viva com suas ancestralidades. No cinema asiático, o horror folclórico frequentemente abandona a lógica cristã maniqueísta e mergulha em maldições hereditárias, fantasmas ligados ao espaço e forças naturais além da compreensão humana. Os filmes do diretor japonês Kaneto Shindô demonstram muito bem isso. Onibaba, de 1964, usa campos de guerra e máscaras para exemplificar a violência humana e o horror, enquanto Kuroneko, de 1968, mistura espiritualidade e abuso em uma atmosfera fantasmagórica e melancólica. Essa abordagem raramente trata o sobrenatural como uma ruptura da realidade; pelo contrário, essas forças parecem fazer parte do cotidiano, como se os espíritos jamais tivessem deixado de existir.

Um dos pontos mais interessantes do horror folclórico é que ele raramente depende apenas do sobrenatural; muitas vezes, o horror vem do próprio contexto humano, da comunidade onde reside. Diferente do medo urbano, em que o perigo surge do desconhecido, aqui o desconforto nasce do pertencimento coletivo levado ao extremo. Vilarejos parecem acolhedores até demonstrarem estruturas opressivas, crenças violentas e tradições sustentadas pelo sacrifício. Existe até mesmo uma forte crítica ao tribalismo, ao extremismo religioso e à nostalgia idealizada do passado. Em O Homem de Palha, o choque entre cristianismo e paganismo levanta uma questão: quem realmente é civilizado? Já Abruxa, de Robert Eggers, lançado em 2015, demonstra como a paranoia religiosa e repressão moralista se transforma em um retrato sufocante do medo.
As florestas, o campo, a natureza e aquilo que pode existir dentro deles são outros elementos fundamentais. A mata observa, a terra retém memória e o ambiente parece rejeitar a presença humana. Filmes modernos como In the Earth, de Ben Wheatley, lançado em 2021, e O Ritual, de David Bruckner, de 2017, trabalham a ideia de uma natureza quase consciente, reagindo ao colapso emocional da sociedade contemporânea. O horror ecológico se mistura ao folclore, criando narrativas em que o mundo natural deixa de ser apenas cenário e começa a assumir uma presença aterradora.
No começo deste século e nos anos que se seguiram, o folk horror passou por um renascimento. Obras modernas como Midsommar, de Ari Aster, lançado em 2019, Hagazussa, dirigido por Lukas Feigelfeld, de 2018, jogos como Mundaun, de 2021 e a revista Labatut, lançada pela editora Grifo, reinterpretam os elementos clássicos do gênero para discutir temas atuais como solidão, masculinidade em crise, radicalização política, trauma emocional e necessidade de pertencimento.

Pesquisadores ligados ao horror, como Robin Wood, frequentemente observam que monstros revelam ansiedades escondidas de suas épocas. O folk horror demonstra isso de forma clara. Ele conversa diretamente com conceitos como a “fantologia” do filósofo franco-magrebino Jacques Derrida, em que o passado retorna como um fantasma incapaz de desaparecer. O gênero sugere que a modernidade nunca conseguiu apagar completamente seus medos primitivos. Por trás da tecnologia, da racionalidade e da vida urbana, continuam existindo impulsos antigos relacionados à fé, à violência, à tradição e ao medo do desconhecido.
Em um mundo marcado por isolamento digital, crise ambiental, extremismos e sensação constante de vazio, o horror folclórico deixar explicito que o ser humano continua procurando por pertencimento, identidade e sentido, mesmo que isso o conduza para caminhos sombrios. Lembrando que o passado nunca desaparece completamente.