A veterana banda paraense inicia sua primeira turnê europeia com shows na Alemanha e República Tcheca, reafirmando quatro décadas de independência, ativismo político e a força da cena underground amazônica.
Poucas bandas conseguem atravessar quatro décadas sem abrir mão de seus princípios. A Delinquentes é uma delas. Formada em Belém, em 1985, a banda chega aos 40 anos de carreira vivendo um dos momentos mais simbólicos de sua história: a primeira turnê pela Europa. A European Tour 2026 levará o hardcore crossover produzido na Amazônia para palcos da Alemanha e da República Tcheca entre os dias 1º e 11 de julho. Ao lado da banda finlandesa de death metal Goat Burner, a Delinquentes fará uma série de apresentações que incluem espaços históricos da cultura punk europeia e o tradicional Obscene Extreme Festival, um dos maiores festivais underground do continente.
Entre os compromissos da turnê está o show do dia 2 de julho, no Cafe Pawlow, em Dresden, na Alemanha. A apresentação acontece a partir das 20h (abertura da casa às 19h) e integra uma programação organizada pelo produtor Xaninho, parceiro de longa data da banda, com apoio da Fabrika Studio e Suave City. Para a Delinquentes, porém, a turnê representa muito mais do que uma conquista artística .”A mensagem maior é de resistência, por ser uma banda do Norte do país, tocando um hardcore da Amazônia num lugar bem distante de tudo”, destaca Jayme Katarro, Vocalista da Delinquentes.
No repertório, o público europeu encontrará um panorama completo da carreira da banda, desde as primeiras composições dos anos 1980 até músicas do álbum mais recente, A Serpente, lançado em vinil por um coletivo de selos independentes brasileiros.A formação da turnê reúne Jayme Katarro (vocais), Paulo Bigfoot (guitarra e backing vocals), Pablo Cavalcante (baixo e backing vocals) e Wagner Nugoli, que assume a bateria durante a excursão europeia.Mais do que uma turnê, a European Tour 2026 é um manifesto.

Durante quatro décadas, a banda construiu sua trajetória longe da lógica da indústria musical, mantendo uma atuação independente e fiel às origens da cena underground paraense. Enquanto muitas formações surgiram e desapareceram, a Delinquentes permaneceu ativa, lançando discos, cruzando o Brasil em turnês e consolidando seu nome como uma das principais referências do hardcore produzido na região Norte. Esse caminho agora ultrapassa fronteiras .Levar um som nascido na Amazônia para o coração da Europa simboliza não apenas o reconhecimento internacional da banda, mas também a força de uma cena construída à margem dos grandes centros culturais do país.









A postura política sempre foi parte da identidade da Delinquentes e continuará presente em cada apresentação.”Nossa banda é política desde sempre. Nosso grito é antifa em qualquer cidade ou país que estejamos. É a nossa voz, do terceiro mundo, gritando no velho continente sobre as injustiças do mundo”, afirmam os integrantes. Essa coerência também ficou evidente durante o episódio do Facada Fest, em 2020, quando integrantes da banda e organizadores do festival foram alvo de investigação por materiais de divulgação considerados ofensivos ao então presidente da República. Anos depois, a Justiça reconheceu que o conteúdo estava protegido pela liberdade de expressão artística, encerrando definitivamente o caso. O episódio reforçou a imagem da Delinquentes como uma banda que não separa arte, posicionamento político e liberdade de expressão.
Mais do que uma banda de hardcore crossover, a Delinquentes tornou-se uma referência da cultura underground no Norte do Brasil. Sua longevidade, independência e fidelidade aos princípios do punk, fizeram inclusive com que pesquisadores da Universidade Federal do Pará dedicassem uma dissertação de mestrado à sua trajetória, tratando o grupo como um patrimônio da cena rock de Belém e um símbolo da resistência cultural produzida na Amazônia.
Depois de 40 anos de resistência, a Delinquentes mostra que o underground não reconhece fronteiras. Do Pará para a Europa, a banda leva a prova de que independência, atitude e convicção podem atravessar oceanos sem perder suas raízes.