Com o início do Circuito Amazônico, Manaus reúne 70 artistas e projeta o Norte como polo essencial da narrativa gráfica brasileira.
A raiz do traço e o despertar de um eixo editorial
A imagem da Tanimbuca, árvore centenária do Bosque da Ciência do INPA que ilustra o cartaz da Semana do Quadrinho Nacional Manaus 2026, não é uma escolha meramente estética. Ela simboliza o enraizamento de uma produção que, por décadas, foi vista como periférica, mas que agora reivindica o centro do debate. No dia 27 de março de 2026, a capital amazonense não apenas iniciou um evento, mas deu o início da segunda edição do Circuito Amazônico de Quadrinhos, consolidando um itinerário cultural que percorrerá seis estados da região.
Uma ocupação em dois eixos

Entre os dias 27 e 29 de março, Manaus tornou-se o epicentro dos quadrinhos no Norte. A programação, organizada pela Nona Arte Produtora, dividiu-se entre a formação técnica e a interação pública. Na Biblioteca Pública do Amazonas, o foco foi a capacitação através de oficinas gratuitas, enquanto o Mirante Lúcia Almeida, no marco zero da cidade, serviu como palco para a famosa “Beco dos Artistas”, feiras e intervenções coletivas.
Para a jornalista Gabriela Güllich que participa pela primeira vez do evento, teve a oportunidade de encontrar um público novo “Parece até o encontro das águas”. Afirma.
Com a participação de mais de 70 artistas vindos de 15 estados e do Distrito Federal, o evento projetou receber entre 10 mil e 15 mil visitantes, democratizando o acesso com entrada totalmente gratuita.
Artista de Parintins Luis Gama depois de um hiato de 4 anos lança seu quadrinho novo no evento.
Aprender com quem faz
Diferente de convenções voltadas apenas para o consumo, a Semana do Quadrinho em Manaus priorizou a imersão técnica. O currículo de oficinas foi abrangente:
- Sexta-feira (27/03): Roteiro com Helena Cunha, criação de personagens com Monge Han e coloração com Raquel Teixeira.
- Sábado (28/03): Narrativa para mangás com Max Andrade, jornalismo em quadrinhos com Gabriela Gullich e cenários com Leon Sarmiento.
- Domingo (29/03): Desenho com Questo, criação de HQs com Romahs Mascarenhas e tirinhas com Geovan Motter.
Além dos locais, convidados como João Vicente, Levi Gama e Leo Dressant trouxeram a perspectiva paraense para o intercâmbio regional.
O “Passaporte” para a visibilidade
Uma das inovações de 2026 foi o Passaporte Cultural. Distribuído gratuitamente, o material incentivou o público a visitar pontos turísticos e restaurantes parceiros, colecionando carimbos em troca de prêmios. Essa estratégia retira o quadrinho da “bolha” e o integra à economia e ao turismo local, tratando a cultura pop como um ativo de desenvolvimento regional.
Além do cenário, o protagonismo
A 8ª Semana do Quadrinho Nacional de Manaus e o Circuito Amazônico representam um amadurecimento político da classe artística do Norte. Por muito tempo, a Amazônia serviu apenas como cenário exótico para heróis estrangeiros ou do Sudeste. O que vemos agora, através do esforço da Nona Arte Produtora e do Circuito, é a construção de uma infraestrutura editorial própria.
O fato de o Circuito prever paradas em Boa Vista, Parintins, Belém, Palmas e Macapá entre março e maio demonstra uma visão de rede. Não se trata mais de eventos isolados, mas de um corredor cultural que prepara o terreno para grandes nomes como Sidney Gusman e Hugo Canuto, que integrarão etapas posteriores da tour.
O sucesso de Manaus sinaliza que o mercado independente encontrou no Norte um público ávido e uma organização profissional capaz de rivalizar com grandes centros. O desdobramento natural será o aumento do interesse de grandes editoras por talentos locais, que agora possuem não apenas o traço, mas espaços consolidados de debate e escoamento de suas obras.
Se a Amazônia agora narra suas próprias histórias em quadrinhos, até quando o mercado nacional continuará olhando para o Norte apenas como uma “pauta de preservação” e não como um celeiro de inovação estética?
O debate segue vivo nas próximas paradas do Circuito:
- Boa Vista (RR): 04 e 05 de abril.
- Parintins (AM): 10 e 11 de abril.
- Belém (PA): 15 a 18 de abril.
- Palmas (TO): 24 e 25 de abril.
- Macapá (AP): 02 e 03 de maio.