Liderada por Sol Itaputyr, nova editora independente desafia moldes coloniais e coloca a cosmovisão indígena no centro do mercado de quadrinhos.
A descolonização das HQs por meio da ancestralidade
Durante décadas, o mercado brasileiro de quadrinhos operou sob uma lógica de importação ou mimetismo. Quando as populações originárias apareciam, eram frequentemente confinadas a um papel de “outro” exótico ou histórico, filtradas por uma lente externa. No entanto, o nome Pindorama o termo como os povos originários se referiam a estas terras antes da invasão colonial que ressurge agora não apenas como memória, mas como um manifesto editorial.

O nascimento de um novo polo editorial

A Pindorama Comics surge em 2026 como uma resposta direta à inquietação de sua fundadora, Sol Itaputyr, do povo Jeripankó. Originária do sertão de Alagoas, Sol identificou um vácuo de representatividade real: as prateleiras estavam repletas de uma visão “colonial” que tentava encaixar as identidades indígenas em caixas pré-concebidas.
O primeiro título da casa, também batizado de Pindorama, já está disponível gratuitamente e utiliza o gênero da fantasia para escoar uma cosmovisão que mistura memória e identidade. A obra conta com colaborações de artistas como Tom Gomes, Zilson Costa e Ronilson Freire, e já atrai olhares em plataformas como o Catarse e Tapas.
O movimento da Pindorama Comics sinaliza que o quadrinho brasileiro finalmente está parando de olhar para o espelho do Norte Global para olhar para o próprio território. Não se trata apenas de “diversidade” como cota de mercado, mas de uma retomada de autoridade narrativa. Quando Sol Itaputyr diz que quer “imaginar novos futuros”, ela está reivindicando o direito indígena à ficção, tirando esses povos do passado museológico e colocando-os no protagonismo da cultura pop contemporânea.
O que o futuro reserva
Com planos de assinatura acessíveis e uma estratégia multiplataforma, a Pindorama Comics pode ser o catalisador para uma nova onda de editoras de nicho étnico-cultural. O desdobramento natural é que o mercado tradicional sinta a pressão para rever seus critérios de contratação e curadoria. Se o “Brasil” foi uma invenção colonial, a Pindorama das HQs é uma construção de resistência e imaginação.
Resta a provocação: o mercado editorial está pronto para aceitar que o futuro do quadrinho nacional pode estar mais ligado às raízes ancestrais do que às tendências de Manhattan ou Tóquio?