Destaque na prestigiada revista 9ª Arte da USP, o projeto “Norte em Quadrinhos” deixa de ser uma iniciativa regional para se consolidar como um dos movimentos coletivos mais potentes da cultura pop contemporânea.
Imagine um território de dimensões continentais, rico em religiosidade, imaginário e potência criadora, mas que historicamente é reduzido a estereótipos ou ao silêncio nos grandes centros editoriais. Essa é a realidade que o projeto Norte em Quadrinhos decidiu enfrentar. O que começou como uma inquietação da editora amazonense Sâmela Hidalgo durante um painel na CCXP 2019 transformou-se em um fenômeno de articulação coletiva que agora ocupa as páginas da academia e do mercado. Ao ser tema central da revista 9ª Arte, da USP, o movimento prova que a produção amazônida não quer mais apenas uma “janela”, mas entrar pela “porta da frente” do mercado nacional.
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Atuando nas Fissuras
O projeto não nasceu apenas para publicar HQs, mas para mapear e consertar as “fissuras” de um mercado onde o Sudeste concentra a maioria das editoras, gráficas e leitores. Enquanto o Norte apresenta as menores taxas de leitura do país, o coletivo utiliza o ciberespaço para criar pontes onde o Estado e a logística falharam. A proposta é clara: descentralizar. É um movimento que entende o ambiente digital não apenas como ferramenta, mas como um território de “socialidade pós-moderna”, onde o afeto e o pertencimento geram resistência política.

A “história” do Norte em Quadrinhos é uma sucessão de ações estratégicas. Tudo começou com lives durante a pandemia, dando voz a nomes como Ademar Vieira (de Ajuricaba e Sete Cores da Amazônia). Evoluiu para a Coluna Requadros, assinada por Luiz Andrade, que traz um olhar crítico e jornalístico sobre a necessidade de migração de artistas nortistas para o Sudeste como forma de sobrevivência. A narrativa do projeto culmina no Circuito Amazônico de Quadrinhos, que em 2025 conectou as cinco capitais da região.
A Estética do Zine e da Identidade
Visualmente, o projeto se manifesta através de dispositivos como o JornalZine, idealizado por Thai Rodrigues. Com uma estética que resgata o aspecto artesanal e urgente das publicações independentes, o zine foi distribuído na CCXP 2024 para informar o público sobre a cena nortista. A arte aqui não é apenas contemplativa; ela é informativa e militante. Além disso, autores como a própria Francinete Botelho (autora de Purpúreo e Os Contos de Aiyra) trazem uma estética que busca dignidade para os povos da Amazônia, fugindo do imaginário distorcido que alimenta o mercado tradicional.

O grande debate proposto pelo movimento é a legitimidade. Através do Prêmio Mapinguari, criado em parceria com o site Mapingua Nerd, o coletivo instituiu seu próprio sistema de reconhecimento, premiando desde roteiristas até subprodutos de HQs. O tema central é a afirmação territorial: as histórias da Amazônia devem ser contadas por quem vive nela, rompendo com a lógica periférica imposta pela geografia.

A publicação do artigo acadêmico por Botelho, Sousa e Castro na revista 9ª Arte é um marco. Ela chancela o “Norte em Quadrinhos” como um objeto de estudo sério, transformando a “tribo afetiva” das redes sociais em um campo de sociabilidade e criação coletiva reconhecido cientificamente.
Acompanhar o movimento Norte em Quadrinhos através desta análise é sentir o pulsar de uma região que cansou de ser figurante. O leitor é levado a questionar seus próprios hábitos de consumo: “Quantas HQs de autores nortistas eu tenho na minha estante?”. A obra deixa uma pergunta urgente sobre a democratização da cultura no Brasil.
O destaque na revista da USP não é o fim de uma jornada, mas a consolidação de um novo mapa para a Nona Arte brasileira. O “Norte em Quadrinhos” prova que, embora o mercado editorial seja instável e desigual, a coletividade nortista é uma força vital de reinvenção. Eles não estão apenas fazendo quadrinhos; estão ressignificando as fronteiras culturais da Amazônia e lembrando ao país que, sem o Norte, o Brasil está incompleto.